Valfrido Silva*
Antes que acusem o contrapontoMS de colocar a carreta adiante dos bois e inaugurar, no calor das urnas de 2026, a campanha pela Prefeitura de Dourados em 2028, convém registrar que, neste caso, fomos fiéis ao velho princípio segundo o qual antiguidade é posto. Até pela relação umbilical deste insubordinado do jornalismo de Mato Grosso do Sul com a velha, querida e sempre perfumada folha de dourados, é justo reconhecer que o jornal do colega decano José Henrique Marques largou primeiro. Enquanto ainda contávamos os votos que acabavam de sair das urnas, a folha já apresentava a deputada estadual reeleita Gleice Jane como interessada na cadeira do prefeito Marçal Filho. Quando chegamos à porteira, portanto, a carreta já estava do outro lado, embora ninguém tenha encontrado os bois.
Na verdade, nem a folha de dourados nem o contrapontoMS estão dando o pontapé inicial no processo sucessório. Foi a própria política que saiu das urnas de domingo incapaz de esperar a posse dos eleitos. Este site apenas anotou que as urnas afastaram um problema de Marçal, criaram outros e anteciparam a disputa municipal. Isa Cavala Marcondes foi levada do plenário da Câmara para Brasília, mas ganhou mandato federal, imunidade, microfone e emendas. Rodolfo Nogueira, o Gordinho do Bolsonaro, reelegeu-se deputado federal e cresceu politicamente. A esposa dele, Gianni Nogueira, trocou a condição de vice-prefeita pela de deputada estadual mais votada em Dourados. Tiago Botelho e Gleice Jane saíram fortalecidos dentro do PT. Depois, este mesmo contrapontoMS remexeu o museu da política local e encontrou, ainda vivo, o antigo sonho de Zé Teixeira de administrar a cidade.
Agora a folha coloca papel passado na pretensão de Gleice. A deputada disse estar preparada para disputar a Prefeitura, lembrou o governo de Laerte Tetila, prometeu um projeto estruturante, humano e voltado ao conjunto da população e ressalvou, prudentemente, que a candidatura precisará passar pelo PT. É o ritual conhecido: o interessado afirma que não está se lançando, apenas se coloca à disposição; o partido garante que ainda é cedo; os aliados começam a testar o nome; e, quando todos percebem, a campanha já possui candidato, discurso, fotografia e até uma comissão para explicar que não existe campanha alguma.
Até 2028, porém, muita água ainda correrá por baixo da ponte que leva ao CAM, o Centro Administrativo Municipal. A primeira correnteza passa pelo segundo turno presidencial do próximo dia 25. Se acontecer o milagre de Lula permanecer no Palácio do Planalto, a eventual candidatura de Gleice se robustece. Terá um governo federal alinhado, um partido revigorado, estrutura política e a possibilidade de apresentar Dourados como prioridade de um projeto nacional. Se der Flávio Nantes, talvez seja mais prudente a deputada concentrar-se em realizar um segundo mandato melhor que o primeiro e deixar o abacaxi para colega Tiago Botelho descascar.
Tiago, aliás, possui um perfil que pode encaixar-se melhor numa disputa dura contra Marçal — ou contra qualquer candidato apoiado pelo prefeito. Não pode ouvir falar em urna que já demonstra vontade de pular dentro dela. Tem energia, apetite eleitoral e disposição para percorrer as invernadas da agricultura familiar, visitar assentamentos, aldeias, universidades e sindicatos sem perguntar quantos quilômetros ainda faltam. Contra Marçal, poderia reivindicar uma espécie de tira-teima da última eleição municipal. Contra Zé Teixeira, transformaria a campanha num encontro entre gerações: de um lado, o veterano que conhece todas as porteiras; do outro, o petista disposto a atravessá-las correndo.
Nada disso significa que Gleice esteja fora do jogo. Ao contrário. É deputada reeleita, possui identidade política definida, trânsito nos movimentos sociais, ligação com professores, mulheres, indígenas e segmentos tradicionalmente ligados à esquerda. Também carrega a memória do governo Tetila, que deixou a Prefeitura com avaliação suficiente para continuar sendo invocado sempre que o PT precisa recordar que já foi feliz em Dourados. O problema é que a lembrança de uma boa administração não se transfere automaticamente por herança. Antes de pedir as chaves do gabinete que Tetila ocupou, Gleice terá de convencer o eleitor de que não pretende apenas restaurar uma fotografia antiga.
Por enquanto, tudo não passa de fogo de palha aceso pelo calor das urnas do primeiro turno. O bicho começará a pegar quando os eleitos assumirem os mandatos, as emendas forem distribuídas, os aliados medirem forças e Marçal avançar na segunda metade da administração. Se conseguir consolidar-se como o grande prefeito que sua avaliação inicial promete, continuará mandando bala em seu “Alô, você!” semanal, do alto da própria emissora de rádio, esperando, muito a cavalheiro, que apareça o corajoso disposto a desafiá-lo. Prefeito bem avaliado não precisa correr atrás de sucessão. Senta na cadeira, trabalha e observa os pretendentes cansarem antes da largada.
Marçal possui ainda uma possibilidade que torna o tabuleiro ainda mais interessante. Se tudo der certo na Prefeitura, poderá disputar a reeleição com um vice de sua mais estreita confiança, preparando o terreno para uma eventual aventura estadual quando chegar a hora de discutir a sucessão de Eduardo Riedel. A candidatura municipal de 2028, nesse caso, deixaria de ser apenas a tentativa de permanecer mais quatro anos no CAM. Poderia funcionar como grande balão de ensaio para voos mais altos. Antes disso, porém, será necessário escolher um vice que não passe os quatro anos seguintes olhando para a cadeira do titular, lição que a própria política douradense trata de ensinar diariamente.
Também por isso a ideia de um nome de consenso não pode ser descartada. Zé Teixeira saiu das urnas como o deputado estadual mais votado de Mato Grosso do Sul, conquistou o nono mandato e continua garantindo que está com a saúde tinindo. Em 2028 estará beirando os 90 anos, idade em que qualquer outro cidadão seria aconselhado a reduzir o ritmo, cuidar das artérias, das invernadas e acompanhar a política pela televisão. Seu Zé, entretanto, pertence à categoria dos homens para os quais o poder funciona melhor que muito dos famosos azuizinhos. Se o consenso procurar um patriarca, encontrará um. Resta saber se Marçal abriria mão da reeleição para prestar essa homenagem ou se a vaidade, sempre pontual nas grandes decisões políticas, recusaria a gentileza.
A rigor, ninguém lançou ninguém. Gleice apenas admitiu estar preparada. Tiago continua se aquecendo na pista do Imaculada Conceição, fazendo companhia a Murilo Zauith, o ex-prefeito tido como seu grande fã. Zé Teixeira talvez esteja somente contemplando um sonho antigo. Rodolfo e Gianni, em tese, continuam aliados do prefeito. Isa Cavala nem desembarcou em Brasília. E Marçal segue administrando a cidade como se 2028 estivesse a uma eternidade de distância. Mas a política possui calendário próprio: quatro anos representam uma vida para o eleitor e apenas uma reunião demorada para quem deseja ser candidato.
O contrapontoMS e a folha de dourados, portanto, não colocaram a carreta adiante dos bois. Limitaram-se a registrar que os bois já começaram a caminhar sozinhos, até porque boi que chega primeiro bebe água limpa. Até 2028, poderão mudar de direção, trocar de dono, romper a cerca ou empacar no caminho. Mas, depois da montanha de votos recebida por Zé Teixeira, da reeleição de Gleice, da chegada de Tiago, do fortalecimento do casal Nogueira e da Cavala em Brasília, uma coisa parece certa: candidatos não faltarão.
Até porque, se um octogenário ainda pode sonhar em ser prefeito, por que os demais haveriam de permanecer deitados eternamente em berço esplêndido?
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
