O vice-governador de Mato Grosso do Sul, José Carlos Barbosa, o Barbosinha, escolheu — ou aceitou — um tema que ganhou significado político especial depois da eleição presidencial e dos acontecimentos que se seguiram à derrota de Flávio Bolsonaro: “Política além das urnas”. A palestra está prevista para esta quarta-feira (28), às 19h, durante a Semana Jurídica da UNIFRON, em Dourados, com uma proposta anunciada de reflexão sobre liderança, legitimidade e responsabilidade pública.
A coincidência não poderia ser mais oportuna. Barbosinha esteve na linha de frente da campanha de Flávio Bolsonaro no Estado, onde o candidato derrotado por Lula obteve votação expressiva. Agora, enquanto notícias dão conta de que o senador deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos, o ambiente político exige explicações, reposicionamentos e, sobretudo, clareza sobre o que significa assumir responsabilidades para além da disputa eleitoral.
Não se trata de atribuir ao vice-governador responsabilidade por decisões pessoais de Flávio Bolsonaro, muito menos de presumir qual será sua manifestação. Trata-se de reconhecer que a campanha acabou, o resultado nacional está definido e os aliados políticos precisam lidar com as consequências de suas escolhas — inclusive quando o personagem central de uma candidatura derrotada passa a ser notícia por sua saída do país e pelo descumprimento de uma determinação judicial relativa aos passaportes.
O próprio tema anunciado para a palestra oferece o gancho. Ao afirmar que “as eleições terminam, as expectativas começam”, Barbosinha propõe uma reflexão sobre o compromisso dos agentes públicos com a sociedade depois da contagem dos votos. A pergunta que fica é se essa responsabilidade também se traduzirá em uma avaliação pública do momento político, das alianças que sustentaram a campanha e dos caminhos da oposição ao governo federal.
Há outra questão, menos eleitoral e muito mais concreta para a população sul-mato-grossense. Eduardo Riedel apoiou Flávio Bolsonaro, mas, depois da vitória de Lula, declarou que pretende preservar o diálogo institucional com o presidente reeleito e buscar investimentos federais para o Estado. Entre as prioridades mencionadas estão obras rodoviárias e a infraestrutura necessária à Rota Bioceânica.
É uma posição compreensível do ponto de vista administrativo: Mato Grosso do Sul não pode transformar divergências partidárias em obstáculos ao desenvolvimento. Mas ela também expõe um desafio político para um governo estadual alinhado à oposição nacional. Como sustentar a identidade política construída na campanha sem comprometer a interlocução com Brasília, de cuja cooperação dependem projetos estratégicos, recursos e decisões de interesse dos municípios e da população?
Barbosinha, como vice-governador e integrante da direção política do Estado, poderá ajudar a esclarecer essa equação. Sua fala poderá permanecer no terreno acadêmico, abordando princípios gerais de liderança e ética pública, ou ganhar a dimensão política que os acontecimentos recentes inevitavelmente colocam diante do público.
Não se espera que uma palestra jurídica resolva os impasses entre os governos estadual e federal, nem que o vice-governador transforme o evento em entrevista coletiva. Mas, quando o tema é responsabilidade pública e o cenário acaba de mudar de maneira tão significativa, é legítimo prestar atenção às palavras, às ênfases e às questões que eventualmente serão enfrentadas — ou evitadas.
Mais do que esperar uma frase de efeito sobre a fuga de Flávio Bolsonaro, interessa saber como os dirigentes de Mato Grosso do Sul pretendem conciliar as posições assumidas na campanha com as responsabilidades de governar. Porque, como o próprio tema da palestra sugere, a política não termina quando as urnas se fecham. É justamente aí que começa a cobrança pelos resultados, pela coerência e pelo compromisso com a população.
contrapontoMS, com SECOM-MS
