Valfrido Silva*
Flávio Bolsonaro, o Nantes, mal digeriu a derrota nas urnas e já está no centro de um novo capítulo da política brasileira: os rumores de que teria deixado o país rumo aos Estados Unidos, onde o irmão Eduardo Bolsonaro mantém residência e relações com o círculo político de Donald Trump. A história circula com força, mas ainda exige uma distinção fundamental entre o que foi noticiado, o que está sendo investigado e aquilo que, por enquanto, pertence ao terreno das especulações.
O assunto ganhou temperatura depois que Alexandre de Moraes determinou, em 26 de outubro, que Flávio entregasse seus passaportes e o proibiu de deixar o Brasil. A decisão foi tomada no âmbito de uma investigação que envolve o senador e o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio terá de responder às acusações nos termos da investigação; a existência do procedimento, por si só, não comprova culpa.
Foi nesse cenário que o portal argentino Infobae divulgou a versão de que o senador teria atravessado a fronteira com a Argentina e seguido para Puerto Iguazú, de onde embarcaria em um jato particular rumo aos Estados Unidos. A informação levou a Polícia Federal a verificar fronteiras e voos entre Brasil e Argentina. Até o momento das primeiras notícias sobre a apuração, não havia confirmação oficial de que Flávio tivesse deixado o país; um aliado político negou a saída.
Há também um cuidado indispensável: parte das publicações que inundaram as redes sociais usa um vídeo antigo de uma viagem de Flávio aos Estados Unidos, realizada em maio, e até uma imagem montada que simula uma notícia do g1. Essas peças não comprovam uma fuga depois da eleição e já foram desmentidas por verificadores independentes. Isso, porém, não elimina a necessidade de esclarecer a denúncia específica publicada pelo veículo argentino; são alegações distintas e precisam ser examinadas separadamente.
É justamente aí que entra a hipótese política. Caso a versão de uma viagem venha a ser confirmada, os Estados Unidos seriam um destino relevante para a análise: Eduardo está no país, e a família Bolsonaro já procurou interlocução com o trumpismo. Um eventual encontro entre os irmãos poderia ser interpretado como oportunidade para reorganizar a estratégia política depois da derrota. A ideia de que Trump ou seu entorno ofereceriam proteção, entretanto, permanece especulativa; não há, nos elementos disponíveis, prova de que isso tenha sido negociado.
A pergunta que fica é inevitável: diante da derrota eleitoral, da restrição judicial de viagem e das investigações em curso, estaria Flávio planejando uma nova etapa de sua atuação política fora do Brasil — ou estamos diante de mais uma onda de boatos que mistura fatos reais, imagens antigas e conclusões precipitadas?
Por ora, não há base para anunciar que o Nantes fugiu, que embarcou para os Estados Unidos ou que se refugiou sob a proteção de Trump. Há, sim, uma denúncia jornalística identificável, uma apuração policial relatada pela imprensa e uma série de especulações que pedem esclarecimento.
No Brasil político, os rumores correm mais depressa que os aviões. Mas, antes de declarar o Nantes desaparecido, convém descobrir se ele realmente saiu do lugar.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
