03/11/2011 – 09:11
Pode ter parecido injusta com o Valdecir a análise que fiz outro dia aqui mostrando que o PMDB capenga por falta de espaço e de liderança, numa retrospectiva da polarização entre as forças que sempre dominaram a política douradense. Acontece que por sua meteórica ascensão – pulando de vereador para deputado, no segundo mandato já o mais votado da história, daí chegando à prefeitura – nem houve tempo para que se consolidasse essa liderança, o que viria naturalmente quando tivesse o pleno controle da máquina da prefeitura, mas se espatifando antes da hora no chão vermelho da Coronel Ponciano porque tentou contrariar a lei de Newton (vou ser bonzinho com ele, já que está dodói).
Se não se consolidou como chefe de um desses grupos que sempre se revezaram no poder, pelo menos o ex-prefeito passou à história como o maior fenômeno eleitoral, enganando-se quem pensava que estava morto para a política depois do furacão, da cadeia e de ter sido apeado do poder. Pelo contrário, continuava fazendo política 24 horas por dia “inclusive à noite” e prometendo “arrebentar” nas urnas de 2012 elegendo “um monte” de vereadores, trampolim para o que considerava como líquido e certo – seu retorno à Assembleia Legislativa. E pelo que se conhece do potencial eleitoral do Valdecir, certamente que o grupo que tivesse seu apoio, apesar dos prós e dos contras, sairia com uma enorme vantagem, mesmo que com ele “escondido” nos palanques, uma estratégia que já se desenhava pelas primeiras mexidas no tabuleiro eleitoral. Assim, a saída de cena, que seja momentaneamente, do caminhoneiro que ainda consegue encher algumas carretas de votos pode fazer a política douradense voltar à estaca zero, com a revisão de todos os projetos, já a partir de 2012.
Numa das últimas visitas que me fez, há menos de um mês, com a desculpa de matar saudade do canto da saracura, diante da veemência de suas memórias do cárcere, voltei a ponderar se não tinha medo de morrer. Ele apontou para cima, dizendo: “só se Ele quiser”, dando a entender que continuaria a matraquear, garantindo que quanto mais falava mais votos conseguia. Ontem, introspectivo e com lágrimas nos olhos, ao me reconhecer no meio de um grupo de seguidores mais emocionados ainda, apontou de novo para o céu, como se eu tivesse como ouvir alguma coisa do lado de fora da janelinha da UTI do Hospital Evangélico, mas com sua Maria fazendo a leitura labial: “ele está dizendo pra você escrever que vai voltar a ser deputado”.
Pode ser, eu escrevo, mas se antes tudo dependia do judiciário, agora, muito mais daquEle para o qual ele sempre apontou, diante da gravidade de seu quadro clínico. No pós-operatório, de risco!, a primeira batalha a ser vencida é a análise patológica, depois de uma colectomia total – a cirurgia, de emergência, para a retirada de cerca de um metro e meio de seu intestino grosso. Mesmo diante da natural frieza da equipe médica, o cuidado nas palavras numa lacônica nota “informativa” sobre o quadro do paciente famoso conduz à obviedade do que pode ser o diagnóstico, pelo que se apurou de um procedimento cirúrgico dos mais invasivos, consequência de uma obstrução colorretal por um tumor cancerígeno num paciente com histórico familiar nem um pouco favorável. Tudo dando certo, depois a quimioterapia, não se descartando uma temporada em Barretos, para só daí retornar às ruas, à política, à caça aos votos, para ele ou para os companheiros. E o “ajuda eu”, antes um pedido de votos, agora é uma oração obrigatória, no mais santo sentido da palavra e das intenções.
