05/08/2011 – 06:08
Anita Tetslaff
Milhares de turistas à espera do corneteiro (destaque) de Praga.
Retornando ontem à noite da República Checa para a Áustria, onde já me sinto em casa, matutava num texto bem-humorado sobre uma das maiores atrações da Catedral de São Vito – o corneteiro que, como nos tempos medievais, de hora em hora, faz a alegria de milhares de turistas que vistam a bela e revolucionária Praga. Mas ao navegar pela internet, em busca de notícias, principalmente a respeito da anulação do processo da operação Owari, eis que me deparo com dois textos de encaixe tão perfeito que se pautados por uma editoria especial não teriam saído tão bons: de Fabíola Ortiz (UOL, Rio de Janeiro) sobre a visão da Anistia Internacional a respeito da realidade dos índios no continente americano, e de Fabiane Dorta (Diário-MS), mostrando, com base num relatório da Funced do murilista Antonio Coca, as consequências das maracutaias dos retornos na “famosa” Vila Olímpica – verdadeiro elefante branco enfiado goela abaixo nos meus conterrâneos do Jaguapiru.
No texto da filhota do grande Kaxote os detalhes daquilo que todo mundo desconfiava, mas que não tinha certeza, diante de tanta “cornetagem” de quem acompanhou a obra da tal Vila Olímpica desde o início. E uma interessante coincidência: o projeto é da lavra do mesmo Geraldo Resende, deputado peemedebista que vem se notabilizando por arrancar dinheiro, nem que seja a fórceps, do Tesouro Nacional, para obras mal-acabadas e problemáticas como as da Praça Antonio João, de outras periféricas, como as do Parque Alvorada, além dos não menos encrencados recapeamentos de rodovias federais que provocaram a devassa com quedas em efeito dominó na cúpula do Ministério dos Transportes.
Segundo a guria lá do UOL a Anistia Internacional se refere aos índios como uma “pedra no sapato” dos interesses comerciais, mal sabendo ela que em Dourados, além disso, eles são vítimas da ganância de alguns políticos, servindo apenas como massa de manobra. No relatório “Sacrificando Direitos em nome do Progresso”, que está sendo divulgado hoje, pela celebração, amanhã, do “Dia Internacional dos Povos Indígenas”, um capítulo especial para a difícil realidade dos Guarani-Kaiowá que chama a atenção do mundo, menos, como se vê, de alguns políticos mais preocupados com suas cada vez mais gordas contas bancárias.
Como em Dourados as “cornetagens” rolam mais nas rodas de botecos ou numa ou noutra coluna dos jornais impressos, que não podem se insubordinar, bom seria que algum abnegado se dispusesse a imitar o corneteiro de Praga. O problema é que talvez tivesse que trabalhar mais, não se limitando a aparecer de hora em hora na torre da Catedral Imaculada Conceição, para atrair turistas, mas sempre que pintasse uma denúncia contra a turma dos retornos. Será que Dourados aguentaria tanta cornetada?
