01/09/2012 – 15:09
Retorno não é bem a palavra, já que a biografia dos personagens não se coaduna com o novo – e amaldiçoado – sentido da palavra, aqui por essas bandas, depois da Uragano. Seria o caso de uma reencarnação, adrede planejada pelo advogado trabalhista histórico Harrison de Figueiredo (foto), que desde a chegada ao Paraíso incumbiu-se dos preparativos para a volta triunfal, por Dourados, do camarada Ernesto Che Guevara de la Serna. Mais recentemente, diante dos alarmantes relatos do recém-chegado João Totó Câmara, de quem foi fiel escudeiro, sobre os escândalos envolvendo políticos douradenses de mamando a caducando, depois de confabular com o finado Getúlio, Jango e Brizola, Harrison apelou para o espírito combatente de Che, argumentando que a missão de não deixar a peteca cair no pós-Murilo é inadiável, já que existe a ameaça de outro retorno, ainda nesta encarnação – o do animal do pelo curto. Para convencê-lo, apontou para as facilidades da entrada clandestina pela fronteira seca, via Pedro Juan Caballero, onde Che faria um pit-stop no Shopping China para refazer o estoque de seus inseparáveis charutos cubanos.
Meu reencontro com Harrison foi quinta-feira passada. Privado do canto da saracura por força de uma decisão judicial legitimando um duplo retorno à Caixa Econômica Federal, depois de um chope na presença de Anita, ao som de Nildo Pacito, evoquei, com saudade, o espírito de meu amigo e conselheiro. Pra variar, ele estava indignado como o sistema educacional lá de cima, que em vez de copiar Fernando Haddad (vendido por Lula da Silva na campanha de prefeito de São Paulo como melhor ministro da educação do mundo) sequer fornecia um giz que não se quebrasse durante seus escritos na lousa celestial. Na folga das aulas de Direito fazia bicos num sebo onde aplicava os conhecimentos adquiridos como vendedor de uma empresa de caçambas. E como parte de seu projeto de reintrodução de Guevara na vida terráquea, fazendo esgotar desde que ali chegou toda a edição da mais completa biografia do camarada Che, de autoria do jornalista americano John Lee Anderson.
A fascinação de Harrison de Figueiredo pelo ícone da revolução cubana quase fez João Totó Câmara perder seu principal assessor. Isto só não aconteceu porque quando ele preparava a mochila, decidido a partir para a Bolívia para ingressar o exército guerrilheiro, numa tarde de outubro de 1967, depois de sua sagrada cervejinha no antigo “Meu Cantinho”, na esquina da Marcelino Pires com a João Rosa Góes, recebeu, pelo rádio, a notícia de que seu ídolo acabava ser assassinado.
Agora, entre estas reminiscências, com o próprio Totó, depois do fac-símile de Clóvis de Oliveira informando em primeira mão que Dourados ultrapassou a barreira dos 200 mil habitantes, ele questiona como o eleitorado douradense reagiria ao discurso guevarista. E aproveitando para saber do “Português” sobre a semente política por ele plantada antes da partida, já que ultimamente só lhe chegam informes sobre um raminho da Cabeceira Alegre que vem se espalhando como praga pelos canteiros das ruas centrais da cidade, ao que o ex-prefeito lhe tranquilizou, dizendo que a semeadura que vai vingar é a de Moacir Djalma Barros. Nisso Harrison justifica a ausência do velho Marcha Lenta, que fora até a Cabana de Renato Lemes Soares, em companhia de Faé Bianchi, providenciar as passagens de Che Guevara. Desconfiava que aproveitaram para ir atrás de Walter Brandão e Décio Rosa, já que andavam falando em fazer o velho Leão da Fronteira rugir lá de cima para que Joaquim Soares e Antônio Cola acabem, enfim, com a ociosidade do Douradão. Assim, para ele, Dourados poderia receber o escrete canarinho, quem sabe em comemoração à posse de Guevara na prefeitura. Seria o começo de uma nova revolução.
