04/01/2009 – 09:01
Na sexta-feira entre o Natal e o Ano Novo, ali pelas 11h da manhã, depois de uma longa conversa com meu amigo Roberto Razuk,em sua residência, desci a João Cândido da Câmara em direção a Marcelino Pires, refletindo sobre o que acabávamos de falar. Entre um e outro cafezinho, fumando sem parar (sintoma de sua permanente inquietação com as coisas da política), o ex-deputado lembrava-se de um vaticínio por ele feito já ao final de seu segundo mandato sobre o perigo de Dourados perder sua condição de cidade pólo e de ver corredeira do rio Dourado abaixo, emboladas, suas lideranças passando pela ponte na entrada de Fátima do Sul. “Chamaram-me de louco”, disse Razuk, contrariado por constatar que, enfim, sua profecia está para se consumar.
Enquanto esperava por Anita, que pechinchava numa loja de bugigangas próximo à Praça Antonio João, com a coluna já chiando, sentei-me numa daquelas muretas de proteção das árvores no canteiro central, extasiado com o vai-e-vem dos carros causando um pequeno congestionamento, um sonho meu de criança, mas meio desacorçoado e tentando digerir aquela conversa. Nisso, num contraponto desta história, eis que vejo atravessando a Marcelino Pires, a pé, lépido e fagueiro, justamente uma das maiores lideranças políticas que Dourados já teve. Vestindo calça social com um vinco impecável, camisa de manga longa abotoada nos punhos, chapéu social de feltro colado, postura ereta, olhar firme, à frente, parecia até coisa do Altíssimo, Vivaldi de Oliveira, este mito da política douradense, em carne e osso, ali, desfilando diante de mim como que a mandar um recado a Razuk e a todos quantos se preocupam com o futuro desta cidade: Dourados tem, sim, competência para fabricar líderes.
Vivaldi de Oliveira foi vereador, prefeito e deputado, fenômeno eleitoral nas décadas de 1950 e 60. Abandonou a vida pública pela incompatibilidade da prática política com suas convicções religiosas, mas passando à história como ícone do trabalhismo estadual na era Vargas, conhecido como o prefeito “pai dos pobres”.
Continuei ali sentado e tentando contar nos dedos quantos líderes “de verdade” tivemos, além de Vivaldi. Como estava em frente ao local onde o português João Cândido da Câmara tocava um comércio, comecei pelo filho dele, Totó, também vereador, prefeito por dois mandatos e deputado federal. Bons tempos aqueles em que o prefeito João da Câmara “ordenava” ao todo poderoso governador Pedro Pedrossian que administrasse o Mato Grosso do Rio Brilhante pra cima, pois dali pra baixo mandava ele. Desta mesma época, também com cacoete para líder e grande promessa da política estadual, o deputado federal Weimar Torres foi abatido pela fatalidade em pleno voo para Brasília. Depois deles, veio o filho de seu Quinzito, mineiro de Poços de Caldas, José Elias Moreira, o prefeito que enxergou o futuro e fez as grandes transformações preparando Dourados para o século XXI, saindo da prefeitura antes de concluir o mandato para disputar o governo do Estado. Braz Melo chegou a dar pinta de liderança emergente do Mato Grosso do Sul, mas foi tragado pela corredeira do mesmo rio Dourado que forma uma espécie de pororoca nas imediações da famosa ilha política de Fátima do Sul.
Transportada para os dias atuais, a análise de Roberto Razuk (também ele, um líder por excelência) torna-se cruel. “Não temos representação”, diz ele, considerando-se, aí, para se fazer jus ao título de representante de Dourados, os votos obtidos, na cidade, pelo federal Geraldo Resende e pelo estadual Zé Teixeira, excluindo-se como deputado Ari Artuzi, o fenômeno de 2006, por ser ele agora o prefeito.
Quanto a Artuzi – aí a conversa com Roberto Razuk já ficou para trás – seria a grande esperança de surgimento de uma nova grande liderança por estas bandas. Seria. É que, depois do fiasco e dos equívocos na formação de seu secretariado, e, com os primeiros passos da nova administração, já ficando evidente quem é que vai mandar, de fato, tem-se a impressão de que o eleitorado de Dourados caiu num grande conto do vigário, elegendo Artuzi que, agora, curva-se diante do poderio inexplicável de uma eminência parda, que veste saia, vinda de Campo Grande.
Neste caso, com Puccinelli sangrando Murilo Zauith, a esperança é que o professor Tetila, depois de recarregar as baterias com as Águas do Ribeirão dos Índios, volte a comandar o PT nas trincheiras da oposição. E, nesta condição, o PT é imbatível, podendo ressurgir daí – ou quem sabe desencantando um nome entre os vereadores – o líder que com o qual Dourados sonha há tanto tempo.
