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quarta-feira, julho 1, 2026

Ave, Puccinelli

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09/02/2012 – 16:02

Dante Filho

Pela primeira vez na história de Mato Grosso do Sul, um governador

enfeixa em suas mãos a política estadual de maneira

hegemônica. Trata-se de fato inédito. Desde a criação do

Estado o quadro político sempre foi polarizado com a disputa

entre duas ou três lideranças, que antagonizavam projetos e

interesses, mobilizando expectativas e processos eleitorais.

Foi assim durante anos entre Wilson Martins e Pedro Pedrossian.

Continuou assim entre Zeca do PT e Puccinelli. Agora,

essa dualidade parece ter chegado ao fim. Haverá outras?

Não se sabe. Atualmente, é preciso reconhecer que não há

nada parecido no cenário. Todos parecem querer ser “amigo”

de todos. Havia até pouco tempo uma tese difundida de que o

caciquismo reinante jamais prescindiria de uma disputa frente

a frente entre estas lideranças. Como se sabe, esta “verdade”

foi derrubada nas últimas eleições quando Zeca e Puccinelli se

defrontaram diretamente. Depois disso, houve uma névoa dissipadora

e, paulatinamente, o espectro político neutralizou-se

com o domínio quase que absolutista do governador.

Está mais do que evidente que Puccinelli neutralizou a oposição.

Ele conta com alta popularidade e faz uma administração

acima da média. A economia do Estado está bem gerida e não há

sinais de desgastes internos. O que o governador pode ter, aqui

e ali, são contrariedades motivadas por ranços pessoais – algo

natural em se tratando de personagem tão afeito a polêmicas.

Mesmo seu difundido autoritarismo mercurial esvaneceu-se à

medida em que passou a controlar a língua nas suas declarações

à imprensa.

Por isso é inimaginável que possa haver qualquer definição

sobre o futuro político do Estado que não tenha hoje sua influência

direta. Esse lócus consensual nunca ocorreu antes porque

nenhum governador de Mato Grosso do Sul conseguiu estabelecer

controle exclusivo sobre a máquina política. Ave, Puccinelli.

Pode-se alegar que como ele não poderá mais concorrer

ao cargo de governador nas próximas eleições é natural que

as correntes políticas contrárias não o vejam como adversário

e, dessa forma, passem a lhe dar tratamento mais amistoso,

prometendo amizade eterna. Falso.

A questão é de outra ordem. Em qualquer cenário político

do Estado não há quem imagine ser possível ter viabilidade

eleitoral na contracorrente dos interesses de Puccinelli. Pegue

o caso do PT: nenhum petista de sã consciência, na próxima ou

em futura eleição, desfraldará verdadeiramente as bandeiras

oposicionistas contra Puccinelli. Ao contrário: a tendência é de

adesão, vide as recentes declarações de Zeca do PT e de outras

lideranças partidárias.

Portanto, aqueles que imaginam que o destino reserva de

maneira irrecorrível o cargo de futuro governador ao senador

Delcídio do Amaral convém colocar as barbichas de molho.

Nada é tão certo assim. Se Delcídio não conseguir “amarrar”

Puccinelli ao seu projeto é provável que morra na praia.

Delcídio deve saber disso melhor que todos. Ele conhece

o governador o suficiente para saber que se ele (Puccinelli)

decidir colocar empenho renhido no apoio a outra candidatura

(Simone Tebet, Waldemir Moka, etc.), não medindo esforços a

la Lula para elegê-la, haverá uma eleição caríssima, polarizada

e muito complicada. O senador só se elege com o governador

ao seu lado. Sem ele, adeus.

É verdade que neste campo não há certezas. Tudo é fluido.

Mas a única coisa certa será o domínio do governador sobre

os movimentos do jogo, no qual tudo convergirá em torno dele,

seus feitos, sua imagem, seu legado.

Apenas uma questão merece ser levantada ao final deste artigo.

Puccinelli está realizando uma administração equivalente à sua

obra política? Parece que sim. Digo parece porque mesmo que o

Governo esteja colocando muita informação à disposição do público

em torno do seu trabalho, tudo se resume a apenas isso: informação.

Na maioria das vezes, ela é fragmentada. Não é possível vislumbrar

planos estratégicos para formar sinapses que estabeleçam

um conceito sólido de políticas públicas que reflitam um momento

histórico. Trata-se de uma falha. Que pode ser irrelevante à medida

que não haja nada melhor para se colocar no lugar.

É jornalista – dantefilho@folha.com.br

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