19/01/2009 – 00:01
Arrogante e pretensioso. É o mínimo que se pode dizer do filme institucional veiculado nas emissoras de TV do Mato Grosso do Sul pela Assembleia Legislativa, “informando” que a história do Estado começou a ser escrita no dia primeiro de janeiro de 1979, data de sua instalação, com a posse dos deputados constituintes e do governador Harry Amorim Costa. E os cem anos da luta divisionista liderada por Vespasiano Martins e tantos outros, como Valdomiro de Souza, que chegou a dar ao filho (advogado douradense, hoje morando em Curitiba) o nome de Matogrossense do Sul Brandão de Souza, vai tudo para a lata de lixo?
Não sei se estou caducando, mas tenho a impressão de que estive em Brasília, numa bonita cerimônia no salão Leste do Palácio do Planalto, às 11h da manhã de 11 de outubro de 1977, na presença de um monte de lideranças políticas, quando o presidente Ernesto Geisel assinou a lei complementar número 31, criando o Estado do Mato Grosso do Sul. Isso não é história? Se não me falha a memória a assinatura daquele ato histórico deu-se com uma caneta de ouro, com os ministros Armando Falcão, da Justiça e Maurício Rangel Reis, do Interior, este considerado o “pai da divisão”, também assinando o documento que conferia emancipação política e administrativa à parte Sul do Velho Mato Grosso, seccionado no sentido leste-oeste um pouco acima do ponto onde é hoje a cidade de Sonora, tendo como linhas demarcatórias alguns rios, como o Cuiabá, o Itiquira e o Correntes, este, o mais conhecido, pois é o que corta a BR 163, de ligação entre os dois Estados.
Se a história do Mato Grosso do Sul começa com a instalação da Assembleia Constituinte, em primeiro de janeiro de 1979, como diz o filme com o qual se gasta agora uma babilônia na televisão, então nem a própria Constituinte poderia ter sido instalada, uma vez que os deputados que a compunham foram eleitos em 1978, não só eles como também os primeiros federais e o primeiro senador eleito pelo voto direto em Mato Grosso do Sul, Pedro Pedrossian. A propósito, pela visão equivocada da atual mesa diretora da Assembléia Legislativa, não se trata de história a ferrenha batalha de bastidores que abalou as estruturas da cúpula emborcada do Congresso Nacional, com o senador Mendes Canale obrigando o regime militar a desistir de indicar o mesmo Pedro Pedrossian como o primeiro governador? E a briga intestina entre os outros dois senadores remanescentes do Mato Grosso, os cunhados Italívio Coelho e Rachid Dérzi, pela vaga de senador biônico, em 1978? Também não é história?
Ao confundir a estória da Assembleia com a história do Mato Grosso do Sul, os roteiristas deste filminho perderam a oportunidade de se aprofundar nos mistérios da impressionante longevidade política de um dos mais ilustres integrantes daquela casa, o deputado Londres Machado, deixando de trazer a público os segredos e a forma mágica da atuação do homem que ali implantou uma espécie de Universidade dos grandes conchavos, fazendo reféns todos os governadores que se instalaram num prédio um pouco mais adiante, antes de André Puccinelli.
Bem provável também, pelo alinhamento político finalmente estabelecido entre Assembleia e Governo, que os produtores deste filme sejam os mesmos daquele outro, também veiculado a peso de ouro, na TV, para, ao anunciar as “realizações” do governador André Puccinelli em Dourados, também vender o peixe do deputado Geraldo Resende, mesmo que para isso, sem nenhum pudor, peguem carona nas imagens de arquivo das obras dos prefeitos Braz Melo, Humberto Teixeira, Laerte Tetila e até da catedral Imaculada Conceição.
Não só os eleitores são afrontados, mas também a justiça, tão ciosa quando se trata de campanhas políticas fora de época, e o Ministério Público, que tanto se gaba, também na mídia eletrônica, como guardião da Constituição da República, a mesma que proíbe esse tipo de farra com o dinheiro público.
Se for assim que a Assembleia Legislativa escreve a história do Mato Grosso do Sul, é bom que se vire logo esta página, pois esta é uma história para ser esquecida.
