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Encrenca à vista

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25/01/2009 – 00:01

Depois de quase 24 horas de viagem, já de madrugada, abro a janela do ônibus, na entrada de Barra do Garças, na divisa do Mato Grosso com Goiás. A primeira impressão que tenho não é das melhores, parecendo estar chegando a uma cidade sem planejamento, onde se misturam oficinas com equipamentos pesados pelas calçadas ao lado de estabelecimentos comerciais e de serviços, tudo embolado com áreas residenciais. É o suficiente para voltar no tempo, relembrando Dourados do final da década de 1970, quando o prefeito José Elias Moreira batia com a porta de seu gabinete na cara de um repórter enxerido que insistia em questionar alguns pontos da polêmica Lei do Uso do Solo, em vias de implantação como resultado do diagnóstico do já então renomado urbanista Jaime Lerner. 

Zé Elias mirava no futuro, concebendo uma cidade moderna e bem planejada, enfrentando o conservadorismo de uma população – comerciantes, principalmente – até então preocupada apenas com o estreitamento de algumas de nossas espaçosas avenidas e com gabarito para a construção de prédios (pelo projeto, pré-fixado em seis andares), exatamente para ordenar o crescimento da cidade na horizontal, não só por questões de segurança como também para o melhor aproveitamento dos espaços urbanos ociosos. 

Trinta e dois anos depois parece que vai começar tudo de novo, com uma encrenca – das grandes – à vista, diante do açodamento do prefeito Ari Artuzi ao tratorar a legislação ambiental, liberando geral as licenças, e, da mesma forma, “desburocratizando” a concessão de alvarás, para se fazer cumprir uma promessa de campanha e já mandando avisar, também, que seu próximo alvo é a lei maior – a do uso do solo – que regulamenta todas essas questões. 

O prefeito pode até estar imbuído das melhores intenções, por conta da sintonia fina que tem com a camada mais humilde da população, incluindo aí os pequenos comerciantes, mas o que não pode, no afã de querer mostrar logo a que veio, é começar a meter os pés pelas mãos, perdendo o senso da responsabilidade que o cargo lhe confere, avacalhando com a cidade e passando por cima de leis que demandaram muitos debates e muito dinheiro, uma vez em vigor. 

Alguém que tenha o mínimo de juízo precisa explicar ao prefeito, de forma bem didática, que Dourados arca com o ônus de uma enorme demanda administrativa por conta de uma estrutura física que daria para atender mais que o dobro dos atuais duzentos mil habitantes. Isso, por causa do afrouxamento desta mesma Lei do Uso do Solo, transformada numa verdadeira colcha de retalhos em conseqüência da política urbanista pusilânime dos que se sucederam a Zé Elias e se curvaram aos interesses de especuladores, principalmente os imobiliários. 

Diante desta encruzilhada, fica a expectativa de que Dourados siga firme rumo ao desenvolvimento sustentável, reconquistando a liderança perdida, pois, ao contrário, volta ligeirinho aos tempos do velho coronelismo político. E o mínimo que a população espera, neste momento, é ação firme de alguém que não perca tempo brincando de bedel, fazendo demagogia com o ponto de funcionários, como se não houvesse nada de mais importante a fazer, num escárnio, particularmente, à classe médica. Dourados sonha, muito mais, com um líder que pense grande como Zé Elias, o prefeito que trouxe alguém do quilate de um Jaime Lerner para por ordem em seu crescimento, que, agora, de novo, volta a ser ameaçado pela irresponsabilidade daqueles mais vulneráveis a interesses menores e corporativistas, e, o que é pior, pela pouca noção dos grandes desafios que precisam ser encarados. Pelo andar da carruagem, não demora e a tal sociedade organizada terá que voltar às trincheiras.

 

 

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