02/03/2016 – 10h26
Seria cômico, se não fosse trágico e desavergonhadamente escandalosa a complacência de algumas instituições com a corrupção, também no Mato Grosso do Sul. Manchete do Correio do Estado desta quarta-feira. No alto da primeira página, duas linhas, em letras garrafais: “Aquário pode custar R$ 40 milhões a mais”. Seria o suficiente para estragar o dia de qualquer leitor, principalmente o eleitor com um mínimo de tutano. Mas, masoquista, o leitor, eleitor e contribuinte resolve abrir o jornal e, para seu deleite, lá está: “Damato é acusado de investigar secretamente chefe do MPE”. Isto, no alto da terceira página, antigamente tida como a página nobre, porque era ali que a gente se deparava com as coisas boas da política, mas ultimamente se confundindo com as páginas policiais, já que os políticos são os grandes protagonistas daquelas notícias que só não fazem o jornal verter sangue porque seus crimes são conhecidos como os do colarinho branco.
Debulhando o texto de Adilson Trindade, o jornalista da mais estrita confiança do sempre combativo Antônio João Hugo Rodrigues, chega-se à absurda conclusão de que no Mato Grosso do Sul está, simplesmente, proibida a investigação de condutas criminosas de agentes públicos, inclusive e, principalmente, os do judiciário. Mato Grosso do Sul, lembrando, estado representado no Congresso Nacional por dois dos mais proeminentes petistas entre os protagonistas do escândalo da Lava Jato, o senador presidiário e na iminência de ter o mandato cassado, Delcídio do Amaral, e o deputado ainda inexplicavelmente em liberdade Vander Loubet, sem contar os batedores de carteira do baixo clero congressista espalhados por outros partidos e igualmente se esbaldando com os famigerados retornos como se a coisa não fosse com eles também. Mato Grosso do Sul, o estado do furacão uragânico, com epicentro em Dourados, mas com os ventos destelhando as coberturas dos principais edifícios do condomínio dos três poderes do Parque, em Campo Grande. Mato Grosso do Sul, o estado da Lama Asfáltica, do Coffee Break, do asfalto casca de ovo que não resiste a uma garoa mais prolongada, das pontes caindo em efeito dominó, da obra símbolo de seu maior patrimônio – o Aquário do Pantanal – superfaturada e de tantos outros escândalos e com isso cada vez mais distante dos “celeiros de fartura que reforjaram uma gente audaz” como Vespasiano, Camisão e o tenente Antônio João, personagens de sua historia e que a esta altura do campeonato devem estar dando cambalhotas em seus sepulcros.
Aí vem sua excelência o desembargador João Maria Lós, presidente do Tribunal de Justiça, órgão cujo nome de tão pomposo por si só justifica além de sua existência os milhões do pobre contribuinte gastos para manter a independência de seus juízes, mandando arquivar um procedimento investigatório aberto por um delegado da Polícia Federal contra o chefe do Ministério Público Estadual e um promotor de justiça, porque, segundo ele, não se vislumbra causa justa. Com a devida vênia, o desembargador Lós só pode andar assistindo as aulas de procrastinação do pau-mandado de André Puccinelli no Conselho de Ética, o deputado Carlos Marun, o que tem garantido a sobrevida de um dos mais emblemáticos corruptos da atual geração, o peemedebista Eduardo Cunha, não só como deputado, mas principalmente como presidente da Câmara Federal. Por que não investigar o Procurador-Chefe e um de seus comandados? Só porque o delegado Marcos Damato atalhou caminho, indo direto ao STJ, talvez porque sabia que aqui seria perda de tempo? Aliás, só este fato já justificaria não apenas uma investigação aos membros do Ministério Público como também ao próprio TJ. Seria o caso de bravatear aqui, mandando o desembargador presidente ir ser melindroso assim lá na Cochinchina, mas claro que não é este o caso, que o buraco é mais embaixo.
Menos mal para o delegado federal acusado de ter agido de forma “dolosa” só porque passou por cima da autoridade do presidente do Tribunal de Justiça para conduzir uma investigação “sigilosa e às escondidas” que seu trabalho foi considerado pelo próprio João Maria Lós como “um verdadeiro inquérito policial”. Uai, e não é para isso que são regiamente pagos os agentes públicos? Se o inquérito não fosse tão verdadeiro, das duas uma: ou o delegado teria que sofrer, aí sim, as sanções por ter prevaricado ou talvez tivesse tido a aquiescência da Corte de justiça estadual para prosseguir nas “investigações” que apuram o envolvimento também de membros do Ministério Público com a quadrilha instalada há anos no governo estadual.
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