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quinta-feira, junho 25, 2026

Jornalistas contam como suas rotinas são afetadas pelas notícias

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03/04/2016 – 08h30

Coberturas como as da Lava Jato podem exigir que profissionais fiquem no ar durante horas

Antes de dormir, Cristiana Lôbo senta na frente do computador para jogar paciência. Nas últimas semanas, esta é a forma que a jornalista vem encontrando para desopilar o excesso de trabalho, desde que a crise política culminou no país. Comentarista do assunto, Cristiana dá expediente na GloboNews, canal em que participa de vários programas jornalísticos ao longo do dia. Entre as novidades que acontecem a cada momento, já precisou até dar notícia que tinha acabado de receber pelo telefone. Dia desses, estava ao vivo com Leilaine Neubarth quando recebeu uma mensagem.

— Quando me focalizaram, eu olhava o celular. Leilane perguntou se eu tinha algo de novo, e falei em primeira mão da prorrogação da prisão do João Santana (o marqueteiro do PT) — relembra.

AO VIVO POR HORAS A FIO

Há mais de 30 anos cobrindo política, ela já se acostumou com as muitas horas seguidas no ar. E aprendeu a lidar com as críticas de quem a vê o dia todo:

— É fácil alguém dizer que não gostou do que ouviu. O problema é quando falamos uma coisa que vai parar na internet de forma distorcida, pois as pessoas querem que você fale o que elas estão pensando. Eu busco ser justa. A gente critica e pode ser criticado.

Passar o dia grudado nos sites de notícias e nas sessões do Congresso é rotina cada vez mais comum não só para Cristiana. Seus companheiros de canal Gerson Camarotti, Renata Lo Prete e Andréia Sadi vêm enfrentando uma maratona política na frente das câmeras. E apesar da disposição, o cansaço muitas vezes se torna evidente.

— No final de 2015, senti uma fraqueza no ar e percebi que, na correria, não estava me alimentando o suficiente. Prometi a mim mesma que nunca mais passaria fome, e tem funcionado. Assim como dormir sempre que deixam. Nunca é o bastante, porque a política vara a noite, e a Lava-Jato acorda cedo. Mas não desperdiçar as oportunidades já ajuda — afirma Renata Lo Prete, a editora de política do “Jornal das dez”. — E para quem ama notícia, não há como desligar agora. Eu não tenho vontade de desligar.

Exatamente para não perder um minuto do que pode acontecer, Andréia Sadi é precavida. A repórter que faz cobertura de rua em Brasília diz que se salva pela organização:

— Vou equipada com lanches. E procuro sempre almoçar, já que jantar é mais difícil porque chego cansada.

E em tempos de crise, a solução é a criatividade para lidar com os afazeres. Na semana passada, por exemplo, ela precisava buscar uns exames no médico. Atropelada pelo noticiário, a solução foi adicioná-lo no WhatsApp.

— Expliquei a situação, e ele me mandou o resultado pelo aplicativo — diz Andréia.

O telefone, aliás, vem se tornando um companheiro inseparável nessa movimentação:

— É até um problema com marido e amigos. Mas tenho uma regra de que todo mundo tem 40 minutos por dia, então dou um jeito e vou para a academia. É minha válvula de escape — explica.

Para Camarotti, a melhor forma de desanuviar é em casa. Ele conta que vem evitando sair não apenas para se poupar do cansaço, mas para evitar a exposição das opiniões.

— Onde você chega, isso vira assunto. Por isso, opto pela calmaria — avalia ele, que já teve que faltar um casamento, um seminário internacional e um evento da GloboNews por conta do noticiário pesado: — Minha cobertura é presencial, exaustiva. Os fatos acontecem o tempo todo. Eu acompanho os horários das fontes, tem gente que só pode falar antes das 7h. Eu fico 24 horas ligado, e tenho insônia. Num dia tenso, durmo só quatro horas. Ir ao banheiro, muitas vezes, só quando termina um programa

Os jornalistas Lidiane Shayuri e Clébio Cavagnolle, da Record News, sabem bem disso. Eles apresentam as duas edições diárias do Link Record News — às 11h e às 15h — e já estão acostumados com as horas a fio ao vivo.

— Parece que está passando um furacão. Como muita coisa acontece à tarde, o jornal vai ficando interminável. O cansaço mental é gradativo. Eu saio à noite para dar uma caminhada ou pedalada — conta Clébio.

Lidiane fala que precisou se inteirar das expressões jurídicas para acompanhar os julgamentos e poder repassá-los, de forma didática, ao espectador.

— Para os políticos, é parte do cotidiano. Eu acho importante entender e mastigar isso — explica. — Todo mundo precisa descansar mente e corpo, mas a gente fica dividido: é um momento histórico que nos intriga enquanto profissionais.

Se aqui as manchetes políticas são o assunto mais comentado, os recentes ataques terroristas em Paris, em novembro de 2015, e em Bruxelas, no último dia 22, deixaram os correspondentes Pedro Vedova, da Globo, e Bianca Rothier, da GloboNews, em estado de alerta.

CHORO COMPULSIVO

Para Pedro, que tem Londres como base, uma grande questão é manter o foco nas transmissões ao vivo, entre tantos personagens interligados, nomes estrangeiros e pessoas nervosas:

— Tudo joga contra. Mas, em coberturas como essas, parece que baixa uma espécie de anestesia que mantém nosso foco, mas que sufoca nossa sensibilidade. O clima é pesado. Lembro de chorar compulsivamente numa madrugada em Paris — relata ele. — Aprendi com um cinegrafista que se tiver água é para beber, banheiro é para usar, comida é para comer. Você nunca sabe quando será a próxima oportunidade.

No estresse, Bianca Rothier, que fica na Suíça, entrega que “já perdeu as contas” de quantas vezes trocou o refeição por um barra de chocolate, “seu combustível”. Mas distrair a cabeça, para ela, é a parte mais complicada:

— Retomar a rotina não é simples. Esta semana amigas me convidaram para um festival de música. Tentei me imaginar lá, mas não consegui. Celebrar o que depois de tanta dor? (O Globo)

Cristiana Lôbo e Renata Lo Prete, da GloboNews; Lidiane Shayuri, da Record News; e Bianca Rothier, correspondente da GloboNews na Suíça - Divulgação

Gerson Camarotti: em dias tensos, o jornalista da GloboNews dorme apenas quatro horas - Miguel Sa / Divulgação

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