Dizem, alguns, que a Terra é plana,
como a mente de quem repete sem pensar.
Que o sol gira em torno da dúvida,
e a ciência é conspiração globalista.
Dizem que vacina tem chip,
que livro tem veneno,
que professor é doutrinador,
e que a verdade é o que sai da boca do pastor.
Dizem que Deus veste verde-e-amarelo,
usa farda e arma no coldre,
que o comunismo mora na esquina,
e que a urna eletrônica tem pacto com o capeta.
Mas eu vi a Terra girar —
nos olhos da mulher da limpeza
que perde o ônibus das cinco
e ainda assim sorri.
Vi a Terra girar no pranto do enfermeiro,
no giz da professora,
no tambor do menino da aldeia
que reza dançando para que não acabe a água.
Vi a curva do mundo
na barriga das mães esquecidas pelo Auxílio,
no fôlego de um SUS sufocado,
na esperança que insiste em sobreviver.
Não é o planeta que é plano.
É o medo.
É o fanatismo.
É a ignorância vestida de opinião.
Mas o tempo é redondo, Mané.
E gira.
E cobra.
E volta.
IndiAnara – a musa que dança no compasso da gravidade e do deboche
