Ainda é tempo de inverno nesta parte da Europa. Olho para o céu, que me aparece em um cinza não muito carregado. Nas previsões do tempo consultadas antes de sair, não constava chuva, ao contrário de ontem, quando choveu praticamente o dia todo.
Ando em direção ao metrô que me levará ao norte para chegar ao Campus Condorcet, em Aubervilliers, cidadezinha colada ao norte de Paris.
Vou participar do colóquio Le pouvoir d’agir des chercheurs indigènes dans la construction et la transformation du monde contemporain.
Entre os/as indígenas presentes, o programa destaca três estudantes da UFGD de Dourados, doutorandos na Universidade Paris 8: Rossandra Cabreira, com o tema Tradições e costumes: rituais, línguas e artesanato. A transmissão intergeracional de saberes; Inair Gomes Lopes, com o tema Desafios atuais, questões territoriais e ambientais: discriminação e invisibilidade social indígena; Ezequiel Valiente, com Educação e identidade nas sociedades indígenas. Cosmologia e ritual. Reafirmação da identidade indígena nas aldeias.
Para completar o programa da manhã, o professor Gileandro Barbosa Pedro, da Faculdade Intercultural Indígena da UFGD, além de moderador de uma mesa, tem conferência marcada sobre educação indígena. Belo programa.
Todos esses indígenas, neste ano escolar francês, fazem parte do programa Guatá, que recebe bolsa do governo francês. Rossandra é orientada pela professora Dra. Gicelma Chacarosqui (Literatura); Inair, pela professora Juliana Mota (Geografia); e Ezequiel, pelo professor Diógenes Cariaga (Antropologia).
Quarenta e cinco minutos depois, na saída do metrô, o tempo não mudou. Os metros de distância estão secos e o céu no mesmo cinza.
A jornada começa com café e cantos guarani. O presidente da Universidade Paris 8, Arnaud Laimé, abre os trabalhos do dia com a presença de Sophie Jacquel, da Embaixada da França no Brasil (en vidéo), e de uma representante das comunidades europeias.
Os franceses, segundo o presidente da Paris 8, estão contentes com essa possibilidade de trocar saberes entre povos europeus e indígenas, construir pontes e imaginar transformar o mundo contemporâneo com mais conhecimentos e humanidades — ou seja, construir saberes inclusivos, inspirados nas sociedades indígenas.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
