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terça-feira, fevereiro 3, 2026

Não desespere a aurora

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O ano começou, de fato. Parece que o outro nem terminou direito e já nos encaminhamos para o reinado de Momo. Fevereiro. É quando o pau come na casa de Noca. O carnaval já vem mostrando seus acordes. Tamborins envenenados, agogôs incontidos, cuícas solfejantes, passistas endiabrados. E a gente tá como? Correndo pra não deixar que as águas de março engolfem as narinas.

O mundo padece de guerra. Mas por aqui, não. Por aqui há no máximo essa coisa louca de gente que sai na chuva, pra defender o indefensável, pra admitir o descabido, pra sublimar a ignorância. Debaixo de chuva e correndo o risco de provocar Deus (ah, como gostam de evocar o seu santo nome em vão) e levar descarga de raio na cabeça.

De resto, uma anunciação. Como a música de Alceu Valença. Descubro agora que ele a compôs no acaso da flauta. Numa época em que não havia celular e o máximo que alguém pedia pra ele era um autógrafo em capa de disco de vinil.

Me perco nas horas de tanto ter que fazer. E parece que o dia não dá pra tudo. Pra tanto. Ainda assim, desfruto dos minutos roubados desse cotidiano imposto. Aposto na fresta e acerto em cheio a prosa. Proseio de forma poética. Pra aliviar os olhos e lavar a alma.

Cantarolo em minha mente Belchior. Acordei com Zeca Baleiro numa interpretação livre de Ypê. E me salvo de tudo o quanto é raso. Reviro a memória e a melodia lírica do cearense, bigode largo, palavra livre e mente solta, me leva para o início dos anos 1980, nas ruas de São Leopoldo, tempo de faculdade.

No muro havia escrita de resistência. Nas rádios e na vitrola a música de Belchior dominava. O êxtase da poesia vinha acompanhado de uma dor fina, provocada pela melancolia do desterro. Certeza de não estar em minha terra. De pertencer a outras plagas. De identidade nordestina.

E a música, e os versos, e a poesia incerta e breve, ao mesmo tempo em que me doía, me aliviava. Desperto do passado ligeiro com o presente batendo à minha porta. A lente riscada dos meus óculos. O álcool 70 em minha mesa. O copo meio cheio. O prato esvaziado da comida.

De fato, o ano começou. Meu surto criativo estanca num bocejo. Dormiria mais, não fosse a necessidade de me exercitar manhãzinha pra manter o corpo em forma. E a mente sã. Lembro de Ferreira Gullar, Villa-Lobos e o trenzinho caipira cortando a serra, menino a voar. Levanto da cama ainda zonzo. Só uma certeza me basta. Não desespero a aurora.

Inorbel Maranhão Viégas – Maranhão Viegas nasceu na ilha de São Luís, Maranhão. Ganhou o mundo antes de completar a primeira infância, no rastro da família e do trabalho do seu pai, que lhe impunha mudanças geográficas de tempos em tempos. Percorreu o Brasil e o mundo. Passou mais de duas décadas em MS exercendo o jornalismo e a poesia. Aportou em Brasília. E é de lá que segue içando o mastro de seu barco imaginário no rumo de todo mar. Tem dois livros publicados, “Cápsulas de Oxigênio” e “A Beleza das Cicatrizes”, este último, já traduzido para o espanhol.

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