Há palavras que deveriam ser proibidas de circular impunemente pelos corredores do poder, sobretudo quando o povo está do lado de fora, esperando o ônibus, a consulta médica, o asfalto e a dignidade. Uma delas é “ordinária”. Porque ordinário, como ensina o mestre Aurélio, não é apenas aquilo que está na ordem habitual das coisas, o rotineiro, o costumeiro, o frequente. Ordinário também é aquilo que é inferior, vulgar, de má qualidade, reles, sem caráter, ruim. E cá entre nós: dificilmente um adjetivo foi tão bem-sucedido em retratar certos rituais da política brasileira quanto esse.
A Câmara Municipal de Dourados, por exemplo, abriu o ano legislativo essa semana com Sessão Solene e, logo em seguida, Sessão Ordinária. A própria semântica já faz rir — ou chorar. Porque a pergunta que se impõe, em tempos de urgências acumuladas, é simples: será que os poderes legislativos municipal e estadual não deveriam inverter a lógica e trabalhar mais com sessões extraordinárias do que ordinárias? Extraordinário seria enfrentar o que é inadiável. Ordinário é fazer discurso, posar para foto, aprovar comissão, distribuir cargos internos e salários; seguir como se a cidade estivesse num eterno domingo burocrático. Não. Não vamos nem entrar na seara dos absurdos da reabertura do Congresso Nacional, em sua primeira sessão ordinária deste ano. Aqui, concedo um aparte ao amigo Geraldo Resende e a seu colega Rodolfo Nogueira, gordinho do Bolsonaro, os dois únicos douradenses com assento na Câmara Federal.
Dourados vive uma situação extraordinária já há algum tempo: uma Câmara funcionando em prédio alugado, luxuoso, enquanto a reforma da antiga sede segue sub judice, emperrada, custando milhões ao contribuinte, como se a Casa Legislativa tivesse virado um condomínio de aluguel permanente. Extraordinário seria resolver essa novela institucional. Ordinário é continuar pagando a conta, sorrindo em plenário e agradecendo a Deus pela democracia, como se democracia fosse sinônimo de boleto.
No plano estadual, a coisa ganha contornos oceânicos. A Assembleia Legislativa passa por constrangimentos que fariam qualquer eleitor perder a fé até na geometria do universo. Deputados sob investigação, alguns já condenados, e não por crimes de tribuna nem retórica exagerada, mas bandidagem comum mesmo. Mas e o que esperar das sessões mais ordinárias ainda do nosso Tribunal de Justiça? Um Judiciário, encarregado cumprir sua função constitucional de julgar e punir, no caso, esses deputados, com desembargadores, inclusive o presidente anterior, ostentando tornozeleiras eletrônicas. Não por solidariedade a Bolsonaro, mas acusados de venda de sentenças, conluio e outros pecados que nem Chico Xavier ousaria psicografar sem pedir desculpas. Isso tudo é só a ponta do iceberg que começou com lama asfáltica, que segue escorrendo, viscosa, pelo Parque dos três Poderes.
Mas voltemos ao ordinário douradense, onde a criatividade institucional parece não ter limites quando o assunto é multiplicar estruturas. A Câmara acaba de apresentar e aprovar a composição de nada menos que 22 comissões permanentes. Vinte e duas! Ora, se nomes resolvessem problemas, Dourados já seria a capital mundial da excelência administrativa. Porque há comissão para Justiça, Finanças, Obras, Educação, Agricultura, Pecuária, Saúde, Direitos Humanos, Ética, Meio Ambiente, Cultura, Esporte, Juventude, Drogas, Criança, Idoso, Animais… só falta uma Comissão Permanente de Investigação sobre por que nada se resolve.
E cada comissão tem presidente, vice e membro. Ou seja, um pequeno exército de pareceres potenciais, reuniões possíveis, atas infinitas e encaminhamentos eternos. A dúvida cruel é: se existem 22 comissões, por que a cidade continua enfrentando problemas que caberiam em duas ou três decisões objetivas? Ou será que estamos diante daquela velha máxima brasileira: quando não se quer resolver, cria-se uma comissão?
Porque comissão, no Brasil, é quase um ser metafísico. Serve para estudar, discutir, analisar, emitir parecer, deliberar, encaminhar… e no fim empurrar tudo para o próximo ano, para a próxima legislatura, para o próximo escaninho, para a próxima sessão. Ordinária.
E aqui, pela arquitetura interna onde ficam os gabinetes de suas excelências, talvez seja o caso de usar a imagem de um labirinto, não apenas como metáfora gráfica, mas mitológica. Na Grécia antiga, o labirinto de Creta foi construído para esconder o Minotauro — aquela criatura meio homem, meio fera, que devorava os que se perdiam nos corredores. Aqui, guardadas as devidas proporções e os ternos bem passados, também construímos labirintos institucionais para esconder nossos próprios monstros: a inércia, o desperdício, a burocracia e a política ordinária que consome o contribuinte em prestações. Falta apenas um fio de Ariadne, não para salvar heróis, mas para conduzir a cidade para fora dessa arquitetura de comissões.
Menos mal que ano eleitoral está aí, fungando no cangote dos vereadores. Depois do primeiro ano desta legislatura, já não basta presença em plenário nem discurso em sessão solene. É preciso mostrar a que vieram. Até porque, enquanto muitos assistem com paciência institucional, Isa Cavala Marcondes distribui estocadas quase diárias e ocupa o espaço que outros deixam vago. Pior, mesmo batendo no “peito” como integrante da base do prefeito, começando a desancar o aliado Marçal Filho. Política é assim: quem fala alto vira referência, quem cochila vira paisagem.
Aliás, o prefeito Marçal Filho também terá que recalcular alguns rumos. Porque não é só a Cavala que dá seus trotes. Outros colegas, inclusive da mesma base que garante a tal governabilidade já começam a mostrar as asinhas, como sempre acontece quando o calendário eleitoral acende seus faróis e os apoios passam a ter preço, prazo e ambição. Ah, pena que ninguém pensou em criar a Comissão do Mensalinho, “palavrão” estranho e, sintomaticamente, tabu entre as paredes do Jaguaribe.
E assim segue a política na terra dos coronéis, de forma ordinária, como também a de Mato Grosso do Sul e, extraordinariamente, a política nacional.
