Na política sul-mato-grossense, poucas histórias são tão improváveis — e ao mesmo tempo tão reveladoras — quanto a que começa a se desenhar, silenciosamente, nos bastidores de Dourados. Dezesseis anos depois de protagonizar o maior escândalo de corrupção da política do Estado, o ex-prefeito Ari Artuzi, personagem central da Operação Uragano, ensaia uma espécie de retorno. Não no próprio corpo, evidentemente, mas por meio de um processo que, para os mais atentos, lembra menos uma articulação política convencional e mais uma reencarnação cuidadosamente planejada.
O corpo dessa nova tentativa atende pelo nome de Maria Aparecida de Freitas, sua ex-mulher, figura até aqui discreta, de perfil simples, mas que, na undécima hora do prazo de filiações partidárias, ingressa no MDB, partido que, não por acaso, abriga uma das figuras mais emblemáticas da política estadual: o ex-governador André Puccinelli. Candidata a deputada estadual? Servir de “escadinha” ao algoz do ex-marido ou para cabalar votos para Azambuja, cuja candidatura ao Senado começa a fazer água?

E é justamente aí que a história ganha contornos ainda mais intrigantes, porque foi sob o governo de Puccinelli que a Operação Uragano veio à tona, levando Artuzi à prisão e à derrocada política. O mesmo Puccinelli que referia-se ao ex-prefeito com a pouco elegante alcunha de “animal de pelo curto”, agora, vê seu partido abrir as portas, ainda que discretamente, para a reentrada simbólica de um personagem que ajudou a derrubar.
Seria um gesto de reconciliação? Um mea-culpa tardio? Dificilmente.
Nos bastidores, a leitura é mais pragmática. O movimento não nasce de um impulso pessoal de Puccinelli, mas de uma articulação mais ampla, que aponta para o chamado establishment estadual, com fortes indícios de orientação do grupo liderado por Reinaldo Azambuja, hoje no PL e cada vez mais inserido no jogo de reposicionamento político para as próximas eleições.
Azambuja, aliás, surge como peça central desse tabuleiro. Apontado até pouco tempo como favorito a uma das vagas ao Senado, viu seu cenário se embaralhar após a mudança partidária e, sobretudo, após o apoio declarado de Jair Bolsonaro ao deputado federal Marcos Pollon. A partir daí, o jogo mudou. E, como em toda boa partida, tornou-se necessário buscar novas peças, especialmente em regiões onde sua força eleitoral sempre foi limitada.
Aliás, Dourados nunca foi território confortável para Azambuja. E é justamente aqui que o nome Artuzi, goste-se ou não, ainda ressoa no imaginário popular. Fenômeno eleitoral em sua ascensão, personagem controverso em sua queda, Artuzi permanece como uma memória viva e, ao que tudo indica, eleitoralmente mensurável. A aposta, portanto, parece clara: resgatar esse capital, ainda que de forma indireta.
Do lado da família Artuzi, o silêncio é quase absoluto. Não há declarações públicas, não há confirmações explícitas, não há negações enfáticas. Apenas um murmúrio que circula nos bastidores e que revela mais sobre sentimento do que sobre estratégia. A ex-primeira-dama, independentemente do desfecho eleitoral, carrega consigo um desejo que transcende a política imediata: o de que o ex-marido, tratado por muitos como símbolo de corrupção, seja também lembrado como aquilo que, de fato, foi em determinado momento — um fenômeno eleitoral.
E mais do que isso. Que aqueles que, segundo sua leitura, contribuíram para sua queda e morte política tenham ao menos a decência de lhe conceder, agora, um sepultamento digno. Que Artuzi seja retirado da cova rasa da memória política e reposicionado, ainda que simbolicamente, em um espaço mais nobre, algo próximo de um mausoléu reservado aos personagens que, para o bem ou para o mal, marcaram época.
É uma narrativa incômoda. Porque expõe, com rara clareza, uma das verdades mais persistentes da política brasileira: nela, raramente há mortos definitivos. Há silêncios, afastamentos, hibernações. Mas, quando o ambiente permite, a reencarnação não apenas é possível, como pode ser cuidadosamente construída. E, às vezes, começa exatamente. assim. Em silêncio. Sepulcral.
