Seu rosto continua belo. Suas rugas, em sulcos profundos, marcam — como o tronco de árvores — o tempo, ano após ano: 96 até agora. Vivências marcadas por tristezas e alegrias.
Depois de certo tempo, com as nuvens encobrindo sua memória, ela conta 16 partos, dos quais apenas oito teriam vivido — “vingaram”, como dizia minha avó, que teve um número ainda maior — 22 —, em épocas em que as mulheres não tinham contraceptivos.
Eu havia contado oito vivos, dois natimortos e dois abortos.
Cansada. Mas não dá arrego.
Seu corpo envelhecido pende para o lado direito, um problema no quadril que lhe dá um caminhar assimétrico. Nunca reclamou, nunca quis tratar. Sofre? Diz que não, mas também já disse, em um momento, que sofre calada, que não fala de suas dores. Sim, não fala. Engole tudo: dores, sapos… Ao mesmo tempo em que exige do outro o que pensa ser uma verdade universal, muitas vezes é apenas a sua.
Personalidade afirmada, continua querendo se movimentar, fazer tudo o que deseja. Seu caminhar assimétrico agora a desequilibra. A impressão é que suas pernas arcadas a ajudam a se fixar no solo.
Tem-se a impressão de que ela rodopia, cai — não cai — com suas chinelas de dedo numa calçada incerta, de furos aqui e acolá.
Um dos pés perdeu a sensibilidade. Até que ponto? Tem dificuldades para entrar e sair do carro. Mas não quer. Não quer ouvir falar em médico, hospital, pronto-socorro ou fisioterapeuta que poderia vir em casa, ajudá-la a fortalecer os músculos para não cair. Hospital, para ela, é “lugar de morte”, de onde não se sai vivo.
Caiu. Seu lado esquerdo sofreu — sobretudo o braço, que ficou em carne viva. Teve sorte. Nada quebrou. Não quis ir ao médico. A cuidadora ficou assustada. Por dois minutos sem segui-la, ela “fugiu” de casa para ver se a neta estava em casa — coisa que faz algumas vezes ao longo do dia. Ela está? Não está? Quer se certificar. Saber. Sentir-se viva. Como se não aceitasse a perda da agilidade, dos passos firmes, da vida de antes.
Foi preciso fazer o curativo: desinfetar, aplicar pomada cicatrizante, proteger com gazes… Dói. Não é a primeira vez que sente dor. Outras certamente foram maiores. Mas, contrariada com o fato de que cuidam dela — quando, na sua visão de mundo, deveria ser ela a cuidar dos outros —, agride. Fica nervosa com quem cuida dela. Grita. Se o vizinho ouvir, pensará que está sendo maltratada. A agressão verbal pode ser seguida de física. Fecha os dentes, dando a impressão de que vai quebrar a dentadura.
“Quer me matar? Tenho o dinheiro para o enterro na poupança!”
Pede que lhe deem veneno — que ela bebe.
“E se vocês não quiserem me enterrar, os vizinhos vão fazer.”
Não quer ajuda. Não quer depender de ninguém. A agressividade seria medo, desespero diante da partida? O que corre na cabeça dela? É uma pessoa que se pode considerar inteligente — talvez agora apenas no passado. Um passado que a névoa vai apagando aos poucos. O que resta de uma vida em que a criança corria pelos campos, tomava banho no riacho? O que amou, o que desamou.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
