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Dourados
quinta-feira, maio 7, 2026

O chão vai tremer na Expoagro, a partir desta quinta-feira

Depois de anos em que a expressão “o chão vai tremer” remetia ao fantasma das operações policiais, Dourados volta a sentir a cidade sacudir — desta vez ao som dos berrantes, das montarias e da tradição sertaneja da 41ª Festa do Peão de Boiadeiro

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O chão vai tremer a partir desta quinta-feira em Dourados. E, desta vez, a expressão não virá apenas do grito tradicional dos locutores de rodeio anunciando a entrada dos peões na arena. Ela ganha dimensão política dentro de uma Expoagro que, ao alcançar sua 60ª edição, transforma o Parque de Exposições João Humberto de Andrade Carvalho não apenas em vitrine do agronegócio, mas também em ponto de encontro de um poder cada vez mais misturado entre pecuária, negócios e sucessão presidencial. Com o governador Eduardo Riedel abrindo oficialmente o evento, a presença de dois presidenciáveis — Ronaldo Caiado e Romeu Zema — e figuras históricas da política sul-mato-grossense ocupando o centro das atenções, como o pecuarista e deputado estadual Zé Teixeira, cujo tradicional leilão desponta como um dos pontos altos da feira, a Expoagro deixa claro que, no Mato Grosso do Sul, o agro há muito tempo também é palco de articulação política.

E, se nos bastidores o tremor é político, na arena ele continua obedecendo à velha liturgia sertaneja que atravessa gerações. Desta quinta-feira até domingo, a poeira volta a subir ao som dos berrantes, das montarias e dos cascos que transformam a Festa do Peão de Boiadeiro em uma das expressões mais tradicionais da cultura agropecuária sul-mato-grossense. Integrando a programação da 60ª Expoagro, a 41ª edição do evento promete devolver a Dourados aquele ambiente em que competição, espetáculo e identidade regional se misturam naturalmente, reafirmando a força de uma tradição que resiste ao tempo e continua mobilizando multidões no coração do agronegócio brasileiro.

Durante quatro dias, o Parque de Exposições João Humberto de Andrade Carvalho volta a se transformar naquele território onde o interior do Brasil se reconhece sem precisar pedir licença à modernidade. Rodeio em touros e cavalos, provas equestres, laço comprido, team roping, bareback, breakaway roping e os sempre concorridos três tambores prometem devolver à cidade uma atmosfera que mistura adrenalina, memória afetiva e disputa de alto nível técnico. Serão mais de 400 competidores, entre cavaleiros e amazonas, ocupando a arena e a pista de laço, enquanto cerca de 100 peões participam das montarias válidas como etapa classificatória para a grande final da Festa do Peão de Barretos — a catedral máxima do rodeio brasileiro — e também para o Campeonato Nacional de Rodeio, previsto para dezembro, em Aravé, interior paulista.

Não é pouca coisa. Em um país onde o rodeio se consolidou não apenas como entretenimento, mas como expressão econômica e cultural de uma parte significativa do Brasil produtivo, Dourados ganha protagonismo ao entrar definitivamente no circuito das grandes competições nacionais. E isso ajuda a explicar o cuidado da organização em profissionalizar cada detalhe do evento. A arbitragem ficará sob responsabilidade de Tião Procópio, nome respeitado no meio, enquanto a cobertura especializada será feita pelo Arena67, canal já conhecido do público sertanejo que acompanha o universo das arenas quase como quem acompanha campeonato de futebol.

O vice-presidente do Sindicato Rural de Dourados, Michael Araújo de Oliveira, talvez tenha resumido bem o espírito do momento ao afirmar que a programação abre oficialmente as portas da Expoagro colocando a cidade no centro das principais competições do calendário sertanejo nacional. E não se trata apenas de retórica de organizador empolgado. O reconhecimento da Confederação Nacional de Rodeio e da Liga Nacional de Rodeios confere peso institucional ao evento e ajuda a atrair atletas de alto nível técnico, elevando o padrão das disputas e reforçando a importância de Dourados dentro desse circuito que movimenta milhões, mobiliza multidões e alimenta uma cultura que resiste ao tempo mesmo diante das transformações urbanas e tecnológicas.

O chão vai tremer na Expoagro, a partir desta quinta-feira
Tradicional formação dos campeões de rodeio e de laço (foto: arquivo da Expoagro de 2025)

A própria Expoagro, que chega à sua 60ª edição, simboliza isso. Como diz o presidente do Sindicato Rural, Gino Ferreira, “mais do que uma feira agropecuária, a feira tornou-se uma vitrine onde agronegócio, negócios, política, tradição e entretenimento convivem lado a lado, frequentemente sem fronteiras muito claras”. Realizada pelo Sindicato Rural de Dourados, com organização da Opa Organização e Eventos, NOLA e Santo Show, a feira reúne apoio institucional robusto, que vai do Governo do Estado à Prefeitura, passando por entidades como Senar, Famasul, Sebrae e cooperativas financeiras que enxergam no agro não apenas uma atividade econômica, mas um eixo estruturante do desenvolvimento regional.

Para Gino, “talvez seja exatamente essa mistura que faça a Expoagro sobreviver ao tempo com tanta força”. Porque, segundo ele, “o evento fala menos sobre bois, cavalos ou máquinas agrícolas e mais sobre pertencimento; sobre um Mato Grosso do Sul que continua encontrando na arena, no laço e no chapéu de palha uma forma de se reconhecer diante de um país cada vez mais urbano, acelerado e distante das origens”.

Por isso, sim, o chão vai tremer em Dourados. Mas, desta vez, não por causa de sirenes, mandados ou operações cinematográficas. Vai tremer ao som dos berrantes, do trote dos cavalos, do grito das arquibancadas e da poeira levantada por uma tradição que, gostem ou não os puristas da modernidade, continua pulsando forte no coração do interior brasileiro.

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