12.1 C
Dourados
sábado, maio 9, 2026

Flávio Bolsonaro quer se distanciar de Ciro Nogueira sem ferir aliança com União-PP e tenta colar Master no PT

Aliados admitem que o caso provocou impacto sobre a articulação com a federação União-PP

- Publicidade -

A operação da Polícia Federal (PF) contra presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), embaralhou a estratégia eleitoral do entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a disputa presidencial deste ano e abriu uma nova frente de tensão na pré-campanha. Com o avanço das apurações sobre as fraudes do Banco Master e as novas revelações sobre a “blindagem política” negociada por Daniel Vorcaro, aliados começaram a debater a pertinência da aproximação com o Centrão. O parlamentar, por sua vez, vem buscando associar o escândalo ao PT, numa forma de tentar se afastar do desgaste.

Aliados do senador admitem que o caso provocou impacto sobre a articulação com a federação União-PP, considerada peça central no projeto eleitoral do PL. Ainda assim, a avaliação predominante é que não há espaço para movimentos bruscos neste momento e que o melhor caminho é “deixar decantar” os desdobramentos da investigação. Ciro é suspeita de usar seu mandato para favorecer o Master e de receber propina de até R$ 500 mil de Vorcaro, o que ele nega.

‘Custo eleitoral’

Interlocutores do senador afirmam que romper agora com União Brasil e PP teria custo eleitoral elevado, sobretudo pela rede de palanques estaduais já construída nos últimos meses. Hoje, o partido de Flávio Bolsonaro já mantém acordos ou negociações avançadas com ambas as siglas, que se uniram em uma federação, em pelo menos nove estados.

No Distrito Federal, o partido tem o compromisso de apoiar a candidatura da vice-governadora Celina Leão (PP). Na Bahia, aliados trabalham pela aproximação com ACM Neto (União). Em Alagoas, o PL deve apoiar Arthur Lira (PP) ao Senado, enquanto no Tocantins a tendência é de apoio à senadora Dorinha Seabra (União).

Há ainda alinhamentos no Rio Grande do Sul, onde União e PP apoiam Luciano Zucco (PL) ao governo estadual; em Mato Grosso do Sul, com apoio à reeleição do governador Eduardo Riedel (PP); no Ceará, onde o PL deve apoiar Capitão Wagner (União) ao Senado; e no Rio de Janeiro, onde o deputado estadual Douglas Ruas (PL) conta com apoio de setores do União e do PP.

Em São Paulo, PP e União também orbitam o grupo político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), principal aliado eleitoral de Flávio e peça-chave do projeto bolsonarista para 2026.

A operação da PF fez com que um evento em que o PP oficializaria o apoio a Tarcísio fosse adiado, ontem. A decisão foi tomada por integrantes do partido para evitar desgastes tanto a Ciro quanto ao governador, que participariam do ato, além pré-candidato ao Senado Guilherme Derrite (PP). Tarcísio afirmou ontem que a operação da PF contra Nogueira não vai impactar sua campanha à reeleição.

Ontem, Flávio, que já considerou Nogueira “o vice dos sonhos”, gravou um vídeo. Na publicação, o parlamentar se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “pai do Lulinha”, investigado no escândalo do INSS, e afirmou que o PT foi contrário à abertura da CPI do Master.

— O pai do Lulinha pode aparecer a qualquer momento dizendo que apoia a CPI do Banco Master. O PT foi contra a CPI do Banco Master. Mas deixa eu te contar uma coisa: o PT foi contra a CPI. Os deputados não assinaram, só que agora não dá mais para segurar. Aí, vem o teatro — disse no vídeo.

O senador também citou ligação entre o Master e integrantes do PT na Bahia, como o ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o senador Jaques Wagner.

Horas após a operação, Flávio divulgou uma nota em que classificou como “graves” as informações reveladas pela investigação e defendeu uma “ampla apuração” conduzida pelo ministro André Mendonça, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

O posicionamento, porém, provocou incômodo entre aliados do Centrão e integrantes da própria pré-campanha. Ciro Nogueira é peça importante no tabuleiro eleitoral e foi ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro.

Reservadamente, interlocutores ligados ao senador avaliam que o tom adotado ampliou o desconforto com o PP. Aliados próximos chegaram a classificar a repercussão da nota como um “desastre”, sob a avaliação de que o gesto acabou transmitindo distanciamento excessivo do presidente do partido.

Um aliado do senador diz que a equipe dele reconhece que a campanha de Lula deverá explorar o mote “Bolso Master”, que busca associar o clã Bolsonaro ao escândalo, e que isso ganha força com uma aproximação de Flávio com expoentes do Centrão.

Entre aliados, há uma avaliação de que o PL depende da robustez política da aliança, especialmente da capilaridade regional. Esse aliado do senador diz que, diante desse cenário, considerou um erro a nota de Flávio.

— Não podemos confundir CPF com CNPJ. O que aconteceu diz respeito ao Ciro, não à federação. Tudo que o Lula quer é que desistamos da federação para tentar pegar o tempo de televisão — diz o líder do PL na Câmara , Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).

Núcleo ideológico

Apesar da cautela, o avanço da investigação contra Nogueira fortaleceu no PL a ala que resiste ao aumento da influência do Centrão sobre a candidatura de Flávio.

Integrantes do núcleo mais ideológico do bolsonarismo passaram a defender com mais força uma chapa com o nome do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) como vice. A leitura é que Zema conseguiria dialogar com setores do mercado e do agronegócio sem carregar o desgaste político trazido pelo caso Master.

O incômodo da ala mais ideológica do bolsonarismo ganhou novos sinais nos últimos dias em São Paulo. A decisão de Eduardo Bolsonaro de apoiar o presidente da Assembleia Legislativa (Alesp), André do Prado (PL) — aliado do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e de Tarcísio — para o Senado provocou reação negativa entre interlocutores do núcleo duro bolsonarista e abriu uma nova frente de desgaste interno no campo da direita.

Ontem, Ciro Nogueira afirmou em nota que há uma tentativa de “manchar” sua honra. O parlamentar associou o episódio a perseguições políticas sofridas em disputas eleitorais anteriores e sinalizou que não pretende abrir mão do mandato. Sem citar diretamente a investigação, Nogueira afirmou que “todo ano político é a mesma coisa” e disse que tentam “parar de todas as formas quem lidera as pesquisas de intenção de votos”.

Luísa Marzullo, Victoria Azevedo, Letícia Pille e Rafaela Gama/O Globo — Brasília e Rio

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-