O agronegócio brasileiro talvez seja hoje um dos poucos setores capazes de reunir, no mesmo discurso, a narrativa da pujança econômica e a sensação permanente de colapso iminente. A abertura da 60ª Expoagro de Dourados ofereceu mais um desses retratos curiosos do Brasil rural contemporâneo: enquanto o governador Eduardo Riedel falava em resiliência, profissionalismo e competitividade, o presidente do Sindicato Rural de Dourados, Gino Ferreira, praticamente anunciava o apocalipse do campo diante de uma plateia que incluía justamente uma das figuras que mais trabalhou internacionalmente para vender ao mundo a imagem de força do agronegócio brasileiro — a senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina.
Não deixa de ser uma contradição interessante. Afinal, o mesmo setor que bate recordes sucessivos de produção, exportação e protagonismo global insiste, simultaneamente, em cultivar um discurso de permanente ameaça existencial. E Gino Ferreira levou isso ao extremo ao afirmar que, enquanto o governo federal comemora a safra recorde, o produtor rural vive um dos momentos mais difíceis da história, endividado junto a bancos, cooperativas e empresas, correndo o risco de perder suas terras para “um sistema ganancioso”.
A frase tem força retórica, sem dúvida. E há nela uma parte inegavelmente verdadeira. O campo brasileiro atravessa, de fato, dificuldades importantes, especialmente em segmentos agrícolas atingidos pela combinação de juros elevados, oscilações climáticas, custos de produção ainda pressionados e volatilidade internacional. Há produtores sufocados financeiramente, sobretudo médios e pequenos, convivendo com renegociações de dívidas e margens cada vez mais apertadas.
Mas o discurso ganha contornos quase dramáticos quando transportado para dentro de uma feira que, paradoxalmente, simboliza exatamente o vigor econômico do agro sul-mato-grossense. Uma exposição capaz de movimentar centenas de milhões de reais, atrair investidores, apresentar novas tecnologias, reunir gigantes do crédito rural, máquinas milionárias, grandes tradings e lideranças políticas nacionais dificilmente se encaixa integralmente na imagem de um setor à beira da ruína.
Talvez aí esteja uma das marcas políticas mais sofisticadas do agronegócio contemporâneo: sua capacidade de produzir riqueza monumental enquanto mantém viva uma narrativa de cerco permanente. Uma espécie de estado contínuo de alerta que ajuda a consolidar identidade política, fortalecer coesão interna e ampliar poder de pressão institucional.
E foi justamente nesse ambiente que Gino Ferreira resolveu também reacender uma das feridas mais sensíveis de Mato Grosso do Sul: a questão indígena. Ao afirmar que “transformaram metade do Estado em terra indígena”, o presidente do Sindicato Rural recorreu a uma formulação que, embora eficiente do ponto de vista emocional para determinados setores do campo, simplifica um conflito histórico extremamente complexo, marcado por décadas de disputas fundiárias, omissões do Estado e violência no campo.
A fala não surpreende. O tema tornou-se praticamente obrigatório em eventos do agro regional, funcionando quase como elemento ritualístico de reafirmação identitária diante de produtores que enxergam nas demarcações uma ameaça direta ao patrimônio e à segurança jurídica. O problema é que, frequentemente, o debate abandona nuances e passa a operar exclusivamente no terreno da generalização e do antagonismo permanente.
Curiosamente, coube ao governador Eduardo Riedel adotar um tom muito mais moderado e institucional. Sem confrontar diretamente o discurso de Gino Ferreira — o que seria improvável naquele ambiente —, preferiu valorizar a resiliência do produtor rural e enfatizar a capacidade do setor de atravessar crises mantendo competitividade e crescimento. Foi uma fala calculada, equilibrada e politicamente prudente para quem governa um Estado profundamente dependente do agronegócio, mas que também convive com tensões fundiárias históricas e uma crescente necessidade de diálogo institucional.
Riedel parece compreender algo que parte do discurso ruralista mais inflamado às vezes ignora: o agro brasileiro já não precisa provar sua força econômica. Ela é evidente. O desafio agora talvez seja outro — administrar o próprio tamanho sem transformar toda dificuldade conjuntural em narrativa de catástrofe iminente.
Porque há um dado quase simbólico nessa abertura da Expoagro. Enquanto o presidente do Sindicato Rural falava em risco de desaparecimento da produção e avanço de um sistema “ganancioso”, a feira ao redor seguia funcionando exatamente como vitrine de um dos setores mais organizados, influentes e economicamente poderosos do país.
No fundo, talvez o verdadeiro retrato do agro brasileiro contemporâneo esteja justamente nessa contradição: um gigante econômico que continua discursando como se ainda estivesse acuado.
