18.9 C
Dourados
quarta-feira, maio 20, 2026

Carta Aberta – imortal de aluguel

Formalização de desligamento institucional e registro público

- Publicidade -

Eu, Vinícius F. M. Guarani, ocupante da cadeira nº 16 da Academia de Letras do Brasil – Seccional Mato Grosso do Sul, venho formalizar meu desligamento definitivo desta instituição. Esta decisão advém de profunda reflexão ética, moral, intelectual e institucional sobre práticas administrativas recentes que, a meu ver, distanciaram a academia de compromissos legítimos com transparência, impessoalidade, democracia cultural e dignidade da produção intelectual sul-mato-grossense.

Minha permanência tornou-se incompatível com um ambiente onde críticas são tratadas como afrontas pessoais, a livre manifestação é silenciada, inexistem mecanismos transparentes de prestação de contas e estruturas de poder familiar comprometem a credibilidade pública. Não posso ignorar o esvaziamento e a apropriação de projetos intelectuais que construí, como a Revista Nena, da qual fui removido após contribuição decisiva.

Minha ausência parcial anterior foi por motivos de saúde comunicados, não justificando exclusão política ou simbólica. Saio sem derrota, mas com a consciência tranquila de quem exerceu o direito de crítica e posicionamento. Não ataquei a literatura ou a cultura, mas questionei práticas administrativas e estruturas de poder que descaracterizaram a função cultural transformadora da entidade.

Observei a degradação da instituição como espaço de pensamento e debate, transformando-se em estrutura centralizada, burocrática e dependente de influência pessoal. O silêncio institucional e a percepção da crítica como ameaça à estabilidade de figuras de poder são preocupantes. Muitos intelectuais são constrangidos, reduzidos a figuras decorativas, afastados dos processos de decisão, enquanto a instituição prioriza prestígios internos em detrimento da promoção cultural efetiva.

A literatura e a cultura não sobrevivem em ambientes de controle subjetivo e personalismo administrativo. Minha saída é um gesto de recusa ética diante da normalização dessas práticas. Recuso-me a participar de estruturas onde a aparência de prestígio se sobrepõe à honestidade institucional e à missão cultural, e onde o poder simbólico é usado para silenciar o pensamento independente. Prefiro a literatura viva, crítica e livre à complacência intelectual como condição de pertencimento.

Há uma contradição profunda entre os princípios públicos da Academia e as práticas concretas da seccional. A ideia de confraria literária foi substituída por validação interna baseada em proximidade e conveniência. Conceitos como “fraternidade intelectual” e “defesa da cultura” são esvaziados quando a instituição não assegura o direito ao contraditório e à divergência respeitosa. A idealização simbólica da academia é instrumentalizada por estruturas pouco transparentes, onde títulos e honrarias funcionam como compensação simbólica.

Minha crítica nunca foi à literatura ou aos escritores honestos, mas ao abismo entre princípios anunciados e práticas executadas. Acredito na dignidade da arte e da intelectualidade livre, e recuso-me a compactuar com encenações institucionais que transformam cultura em aparência de prestígio, silenciando dissidências e fragilizando membros. A integridade moral não é negociável por medalhas ou títulos. A verdadeira permanência literária nasce da obra, da coragem intelectual e da integridade.

Percebi a banalização do mérito cultural e a dissolução de critérios de seleção por relações de proximidade. Minha saída não é ressentimento, mas incompatibilidade ética. Não consigo permanecer onde a aparência de nobreza cultural mascara práticas que esvaziam a liberdade, honestidade intelectual e dignidade humana. Prefiro seguir meu caminho sem títulos, preservando minha consciência, escrita e autonomia. Nenhuma academia pode conceder o que a obra, o tempo e a integridade constroem.

Levarei comigo minha produção intelectual, independência crítica, dignidade e compromisso com a cultura. A imortalidade literária reside na obra, na integridade e na permanência da palavra.

Retiro meu nome não com tristeza, mas com a lucidez de quem vê a ruína por trás do verniz dourado. Deixo esta academia como quem abandona um teatro apodrecido, onde os retratos não guardam grandeza, mas o eco de vaidades e solenidades para sustentar uma falsa eternidade. Não há imortalidade onde a consciência é sacrificada, nem literatura onde o pensamento se ajoelha. Saio com minha palavra, consciência e voz intactas, pois compreendi que certos espaços não protegem a arte, mas domesticam artistas; não expandem o espírito, mas administram silêncios. Parto com a liberdade de permanecer intelectualmente incorruptível, pois instituições que abandonam a ética em nome da autopreservação tornam-se mausoléus administrativos de mediocridade organizada.

Vinícius Ferraz Martins é autor do livro Reticente e Inverossímil, bacharelando em Direito pela UFGD, poeta, escritor, fotógrafo, ilustrador e ator. Cofundador da ONG Divação, é também o idealizador dos projetos literários @mspoetar e @poetarmeu, que promovem a poesia e a cultura no Mato Grosso do Sul.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-