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sexta-feira, junho 19, 2026

Pra Frente Brasil, enquanto Mbappé toca flauta

Ao homenagear o pai com uma flauta após marcar seu primeiro gol na Copa, Mbappé talvez tenha oferecido ao Brasil uma lição involuntária: entre a memória e a nostalgia existe uma enorme diferença

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Enquanto a seleção brasileira segue levando o futebol na flauta, Kylian Mbappé resolveu transformar a flauta em notícia. Ao marcar seu primeiro gol nesta Copa do Mundo, o craque francês correu para a comemoração prometida ao pai, reproduzindo com as mãos o gesto de quem toca o instrumento. Foi uma homenagem familiar, singela, quase poética. Mas vista daqui dos trópicos, onde futebol e metáfora costumam caminhar juntos, a cena produziu um inevitável desconforto. Porque, há muito tempo, o Brasil também anda tocando flauta. A diferença é que a nossa não tem sido uma homenagem. Tem sido um diagnóstico.

Durante décadas, o futebol brasileiro podia se dar ao luxo de tocar flauta. Afinal, quem tinha Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e tantos outros gênios parecia autorizado a tratar o restante do planeta com aquela irreverência típica das peladas de rua. O problema é que o mundo aprendeu a jogar. E o Brasil continuou, por muito tempo, acreditando que apenas sua própria história bastaria para resolver os problemas do presente.

Enquanto isso, franceses, alemães, espanhóis, ingleses e até americanos passaram a tratar o futebol como indústria, ciência e planejamento. Os pequenos deixaram de entrar em campo derrotados. Os médios deixaram de aceitar sua condição de coadjuvantes. E os grandes passaram a ser cobrados pela eficiência muito mais do que pelo talento. O futebol globalizou-se. A bola continuou redonda, mas o mapa-múndi mudou.

Talvez seja justamente por isso que a imagem de Mbappé tocando flauta tenha provocado tanto simbolismo. Porque ali estava um jogador que representa o futuro homenageando o passado. Enquanto isso, o Brasil parece frequentemente fazer o caminho inverso: usa o passado para fugir do futuro. Somos uma seleção que ainda conversa diariamente com os fantasmas de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. E fantasmas, por mais gloriosos que sejam, não entram em campo.

É nesse contexto que reaparece Neymar, uma espécie de sepulcro caiado do futebol brasileiro. Não no sentido bíblico da expressão, como escrito no texto político ao lado, mas na condição de personagem que parecia destinado ao museu das grandes promessas inconclusas e que, de repente, volta a ser apresentado como esperança nacional. O mesmo Neymar que durante anos dividiu opiniões, protagonizou polêmicas, colecionou lesões e frustrações, ressurge agora como possível solução para uma seleção que ainda procura sua identidade.

A ironia é evidente. O país que já produziu Pelé procura salvação em Neymar. O país que ensinou o mundo a jogar futebol vive de saudades. O país que transformou a camisa amarela em patrimônio afetivo nacional passa boa parte do tempo discutindo seu passado. É como se estivéssemos permanentemente olhando pelo retrovisor enquanto o restante do mundo acelera na estrada.

Talvez por isso a chegada de Carlo Ancelotti represente algo tão importante. Pela primeira vez em muito tempo, o comando da seleção parece entregue a alguém que não possui compromisso emocional com a nossa mitologia. Ancelotti não carrega os traumas de 1950. Não se emociona com as imagens de Pelé no México. Não tem lembranças de Zico em 1982 nem de Romário em 1994. Ele enxerga a seleção como um técnico deve enxergar: um conjunto de jogadores que precisa funcionar.

E talvez seja exatamente disso que o Brasil precise. Menos nostalgia e mais futebol. Menos saudade e mais organização. Menos conversa sobre o que fomos e mais preocupação com o que ainda podemos ser.

Enquanto isso, a Copa segue oferecendo seus avisos. Cabo Verde acaba de arrancar um empate da poderosa Espanha. Marrocos já mostrou que não teme o Brasil. Os Estados Unidos atropelaram o Paraguai. O futebol deixou de respeitar hierarquias históricas. Hoje ninguém entra em campo derrotado. E esse talvez seja o maior desafio para uma seleção acostumada a acreditar que sua camisa continua resolvendo problemas sozinha.

Daqui a pouco vem o Haiti. Pobre Haiti, dirão alguns. Mas o futebol moderno recomenda cautela. Porque a mesma bola que um dia consagrou Pelé, Garrincha e Ronaldo continua circulando por um planeta muito diferente daquele em que o Brasil se acostumou a ser rei.

Por isso, ao ver Mbappé tocando flauta em homenagem ao pai, ficou a sensação de que existe uma lição escondida naquela comemoração. A flauta dele aponta para frente. A nossa, muitas vezes, insiste em tocar músicas antigas.

E Copa do Mundo, como a História, costuma premiar mais quem escreve o futuro do que quem vive do passado.

“Pra Frente Brasil, Brasil! Salve a Seleção”.

E que venha o Haiti. Pobre Haiti. Ou será pobre Brasil?

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