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quarta-feira, julho 1, 2026

O fundão, os mercadores e os eternos competentes

A disputa pelo fundo eleitoral movimenta muito mais do que campanhas políticas: alimenta um mercado permanente de operadores, prestadores de serviços e candidatos profissionais, enquanto a fiscalização continua enfrentando velhos desafios

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Valfrido Silva

De dois em dois anos, a política brasileira vive sua própria safra. Assim como o agricultor espera a colheita da soja e o pecuarista a valorização da arroba, há quem conte os dias para a abertura oficial da temporada eleitoral. Não para pedir votos, muito menos para conquistar mandatos. Mas para participar da grande corrida bancada pelo Fundo Eleitoral. É quando reaparecem os eternos coordenadores, articuladores, consultores, “marqueteiros”, cabos eleitorais e, principalmente, os candidatos profissionais. Aqueles que competem, competem, competem… e descobriram que, na política, nem sempre o melhor negócio é vencer. Às vezes, basta disputar.

A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira, mostrando que partidos tão distantes ideologicamente quanto PL e PT se uniram para pedir ao Tribunal Superior Eleitoral uma flexibilização das regras de distribuição dos recursos destinados a mulheres e negros, chama atenção por um detalhe que vai muito além da disputa jurídica. Quando o assunto é dinheiro do fundão, as divergências ideológicas costumam entrar em recesso. Direita e esquerda descobrem rapidamente que, em determinadas matérias, a unanimidade é bem mais fácil de construir do que qualquer frente ampla.

Mas o verdadeiro mistério talvez nem esteja em Brasília. Está nos caminhos percorridos por esse dinheiro até chegar às campanhas. Porque, paralelamente aos candidatos de carne e osso, existe um mercado que floresce a cada eleição. É o mercado dos serviços eleitorais. Consultorias, coordenações, produções de vídeo, impulsionamentos, estruturas de campanha, veículos, combustíveis, gráficas, pesquisas, assessorias, locações, eventos e um sem-número de despesas que, naturalmente, precisam ser comprovadas nas prestações de contas. Em tese, tudo é fiscalizado. Na prática, não são poucos os candidatos que acabam respondendo a processos justamente porque as contas não fecham ou porque a documentação apresentada desperta dúvidas da Justiça Eleitoral.

Não há como deixar de concordar com o deputado Geraldo Resende ao apontar o dedo, mais uma vez, para os “mercadores do voto”. A metáfora bíblica talvez explique melhor do que qualquer tratado de ciência política um fenômeno que se repete eleição após eleição. Esses mercadores não disputam mandatos. Também não aparecem nas pesquisas. A especialidade é outra. Vivem da eleição. São profissionais da campanha. Quando termina uma, começam imediatamente a preparar a seguinte.

É nessa época que também floresce uma das mais curiosas espécies da fauna política brasileira: os competentes. Não confundir com competência. O nome vem do verbo competir. Eles competem para vereador. Competem para prefeito. Competem para deputado. Competem para senador. Competem para governador. Competem outra vez. Competem sempre. Nunca vencem, mas jamais desaparecem. Descobriram que, em certos ambientes, participar pode ser um negócio muito mais rentável do que ganhar. A democracia muda de governo. Eles apenas acrescentam mais uma candidatura ao currículo.

Em Estados como Mato Grosso do Sul, onde a política ainda gira em torno de poucos grupos, o fenômeno ganha contornos particulares. Os grandes partidos concentram os recursos, os caciques distribuem as verbas, os paraquedistas desembarcam com estruturas robustas e os operadores políticos começam a fazer as contas antes mesmo de a campanha ganhar as ruas. É quando muitos descobrem que a eleição pode ser um excelente negócio, mesmo para quem jamais pretende ocupar um gabinete.

Há ainda outro aspecto pouco discutido. Em torno das campanhas gravita uma cadeia econômica inteira. Empresas de publicidade, produtoras, locadoras, gráficas, empresas de eventos, fornecedores de materiais e inúmeros prestadores de serviços vivem esse período como uma verdadeira safra. Nada há de irregular nisso quando tudo ocorre dentro da lei. O problema começa quando a criatividade contábil passa a disputar espaço com a criatividade política, e a Justiça Eleitoral se vê obrigada, anos depois, a reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro.

Em Dourados, não faltam exemplos de prestações de contas que ainda repercutem nos tribunais muito tempo depois de encerradas as campanhas. Há candidatos que seguem respondendo a questionamentos, outros convivem com denúncias que insistem em reaparecer sempre que um novo processo eleitoral se aproxima, e não são poucos os que acompanham, com ansiedade, o desfecho de investigações capazes de produzir reflexos justamente quando muitos já desfilam em clima de vitória antecipada.

Talvez o maior desafio não seja apenas discutir quem recebe mais recursos do fundão ou qual partido conseguirá driblar determinada regra. A pergunta mais importante continua sendo outra: quem fiscaliza, de fato, o caminho percorrido por esse dinheiro entre a conta bancária do partido e a prestação final entregue à Justiça Eleitoral? Porque, enquanto essa resposta continuar perdida entre planilhas, recibos, prestações de contas e recursos judiciais, continuarão florescendo os mercadores, os competidores profissionais e todos aqueles que descobriram que há eleições que se ganham nas urnas… e outras que parecem render bons dividendos apenas por existirem.

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