Há quem enxergue nas dobradinhas familiares um autêntico tiro no pé eleitoral. Foi assim quando Geraldo Resende decidiu disputar mais uma vez uma cadeira na Câmara dos Deputados enquanto sua filha entrava na corrida pela Assembleia Legislativa. Seguidores e adversários correram para fazer as contas, dividir votos, multiplicar riscos e decretar, antes mesmo da largada, que a estratégia poderia custar caro aos dois. Agora, outra dobradinha doméstica, também nascida em Dourados, promete colocar essa tese à prova. E, ao contrário do que muitos imaginam, pode produzir exatamente o efeito inverso.
A vice-prefeita Gianni Nogueira escolheu justamente esta data emblemática (para os bolsonaristas), sábado, 4 de Julho — Independência dos Estados Unidos — para lançar oficialmente sua pré-candidatura a deputada estadual. O simbolismo talvez seja mera coincidência. Mas política raramente vive apenas de coincidências. Principalmente quando a protagonista da história foi, até poucos meses atrás, apresentada pelo próprio Jair Bolsonaro como seu nome preferido para disputar uma vaga ao Senado, sonho interrompido muito mais pela força do azambujismo dentro do PL sul-mato-grossense do que por falta de prestígio junto ao ex-presidente.
Agora, Gianni muda de rota, mas não diminui de tamanho. Ao contrário. Passa a disputar uma das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa dobrando com ninguém menos que seu próprio marido, o deputado federal Rodolfo Nogueira, personagem que se transformou numa das maiores referências do bolsonarismo raiz em Mato Grosso do Sul.
Tiro no pé? Só se for dos bolsonaristas apaixonados pelo porte de armas, os CACs, principal filão eleitoral do também douradense Marcos Pollon, adversário direto de Rodolfo na disputa por uma cadeira na Câmara Federal. Se o casal conseguir manter unido o eleitorado conservador do agronegócio, preservar a fidelidade do bolsonarismo mais ideológico e, ao mesmo tempo, ampliar o alcance sobre o eleitorado evangélico — nicho onde Gianni transita com desenvoltura como missionária presbiteriana —, a conta eleitoral pode fechar muito melhor do que imaginam alguns analistas de ocasião.
A divisão de tarefas parece quase didática. Rodolfo continua explorando sua fidelidade canina a Jair Bolsonaro, justamente no momento em que o ex-presidente enfrenta seu mais delicado capítulo judicial. Gianni, sem abandonar essa mesma identidade política, amplia o espectro da campanha, dialogando com segmentos onde sua atuação religiosa e sua condição de vice-prefeita de Dourados podem abrir portas que nem sempre se resolvem apenas com discursos inflamados nas redes sociais.
Mas talvez o aspecto mais importante dessa candidatura esteja justamente no peso da responsabilidade que ela carrega. Gianni não será apenas mais uma concorrente na disputa por uma cadeira na Assembleia. Depois de ter sido apresentada nacionalmente como o nome preferido de Bolsonaro para o Senado, ela assume o desafio de provar nas urnas que continua sendo, ao lado de Rodolfo Nogueira, uma das principais vitrines do bolsonarismo em Mato Grosso do Sul. Uma votação apenas burocrática dificilmente corresponderá à expectativa criada em torno de seu nome. Sua campanha deixa de ser apenas uma disputa parlamentar. Passa a funcionar também como um teste de densidade política desse grupo no Estado.
Os reflexos, porém, não param aí. Em Dourados, a candidatura também interessa — e muito — ao prefeito Marçal Filho. Caso Gianni mergulhe definitivamente na campanha estadual, abre-se um cenário mais confortável para que o prefeito comece, sem maiores constrangimentos políticos, a discutir a composição de sua futura chapa à reeleição. Nessa engenharia, nomes como o do vereador Márcio Pudim inevitavelmente passam a frequentar as conversas de bastidores, sempre sob o olhar atento de um dos maiores estrategistas da política sul-mato-grossense, o deputado Zé Teixeira.
E há ainda um efeito colateral que dificilmente aparecerá nos releases oficiais distribuídos pelas assessorias. A entrada de Gianni Nogueira na corrida estadual deixa algumas cadeiras da Assembleia um pouco menos confortáveis e faz esvoaçar algumas saias cada vez mais justas entre candidatas que até aqui caminhavam com relativa tranquilidade rumo à reeleição. Não será surpresa se, daqui para frente, alguns elegantes saltos 15 começarem a estalar pelos corredores da política sul-mato-grossense.
A propósito, a solenidade marcada para as 19 horas deste sábado na Associação Comercial e Empresarial de Dourados (ACED), servirá apenas para oficializar aquilo que os bastidores já vinham desenhando há semanas. O verdadeiro lançamento, contudo, não será de uma candidatura isolada, mas de uma estratégia política cuidadosamente construída para fortalecer um casal que pretende continuar ocupando espaço de destaque no principal reduto bolsonarista do Estado.
A disputa de Gianni Nogueira, aliás, vai muito além das fronteiras de Dourados. Ela medirá, voto por voto, o tamanho do capital político acumulado por um casal que resolveu transformar sobrenome, ideologia, agro, fé e fidelidade ao bolsonarismo numa única plataforma eleitoral. Se a fórmula dará certo, só as urnas responderão. Mas uma coisa já parece certa desde agora: a caminhada rumo à Assembleia acaba de ganhar uma candidata capaz de obrigar muita gente a reapertar as tiras dos próprios saltos.
