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terça-feira, agosto 18, 2026

Quando a assessoria acaba atrapalhando o próprio candidato

Leitor do contrapontoMS enxergou na foto da campanha de Reinaldo Azambuja o detalhe que escapou à assessoria, ao jornalista e até à IAIA: às vezes, a melhor ironia está no fundo da fotografia

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Valfrido Silva

Há dias em que o jornalista passa horas procurando uma fotografia capaz de traduzir aquilo que escreveu. Em outros, a fotografia fica ali, diante de seus olhos, esperando pacientemente que alguém perceba a história que já estava dentro dela. Foi preciso um leitor do contrapontoMS para enxergar o que havia escapado à assessoria que produziu a imagem, a este velho escriba e, pasmem, até à IAIA — Inteligência Artificial Insubordinada e Antenada. A fotografia estava diante de nós desde a manhã desta segunda-feira: Reinaldo Azambuja, candidato ao Senado, sorridente, cercado de apoiadores em Maracaju, seu mais tradicional reduto eleitoral, durante o ato que sua assessoria descreveu num release como uma recepção em “clima de festa”. Foi justamente essa expressão que nos levou a ressuscitar Diogo Theotônio de Almeida e sua velha régua dos tempos de O Progresso para discutir a distância entre propaganda eleitoral e notícia. Publicamos o textão, guardamos a régua e achamos que o serviço estava terminado. Não estava. Faltava olhar para o fundo da fotografia.

O leitor olhou. E lá, ocupando generosamente a parte superior da imagem, em letras enormes sobre uma fachada vermelha, estava aquilo que nenhum chargista de bom senso ousaria acrescentar depois no Photoshop porque seria acusado de forçar demais a mão: XING LING PRESENTES. Antes que algum espírito mais afoito resolva procurar pelo em ovo, registre-se que se trata apenas do nome do estabelecimento comercial diante do qual aconteceu a movimentação eleitoral. A loja, seus proprietários e funcionários não têm absolutamente nada a ver com nossas elucubrações políticas e muito menos com as coincidências produzidas pelo enquadramento da fotografia. Mas convenhamos que, depois de tudo o que escrevemos nos últimos dias sobre favoritismo, pesquisas, bicho-papão, transferência de votos, porteiras, estouro de boiada, propaganda eleitoral e a velha régua que separa informação de promoção, a realidade resolveu cometer uma ironia que este insubordinado jamais teria coragem de fabricar.

Porque é exatamente de presentes que a política sul-mato-grossense anda tratando. Reinaldo Azambuja chega à campanha para o Senado liderando pesquisas, carregando oito anos de governo no currículo, uma estrutura política poderosa, prefeitos, deputados, vereadores e antigos adversários reunidos em torno de sua candidatura. Além disso, viu desaparecer do caminho aquele que vinha fungando em seu cangote: Nelsinho Trad desistiu da tentativa de reeleição e passou para a primeira suplência de Azambuja. Como se não bastasse, o grupo ainda procura consolidar Capitão Contar como segundo nome de uma dobradinha para o Senado. É uma fotografia política invejável. Só que foi justamente essa aparente arrumação perfeita do tabuleiro que nos levou, nos últimos dias, a perguntar se não estariam embrulhando como presente aquilo que somente a urna poderá entregar.

A primeira porteira abriu quando Juliano Ferro, o autoproclamado prefeito “mais louco do Brasil”, resolveu anunciar publicamente Azambuja como primeiro voto para senador e Vander Loubet como segundo, ignorando a dobradinha com Contar defendida pelo grupo governista. A partir dali apareceu a pergunta que nenhuma pesquisa consegue responder antecipadamente: quem garante que o segundo voto acompanha o primeiro? Depois veio Nelsinho e outra indagação inevitável: seus eleitores, mesmo com o senador ocupando agora a primeira suplência de Azambuja, irão obedientemente para o candidato indicado? Eleitor vota no titular, não no suplente, e imaginar transferência automática de voto talvez seja uma das tentações mais antigas — e mais perigosas — da política.

Foi aí que resolvemos escarafunchar também a biografia eleitoral do próprio Azambuja. E os números produziram uma conclusão menos confortável tanto para seus adversários quanto para os admiradores que tentam transformá-lo em força da natureza. Azambuja é forte. Muito forte. Mas não é bicho-papão. Já perdeu eleição em Campo Grande, entrou atrás de Delcídio do Amaral no primeiro turno de 2014 e precisou virar para conquistar o governo; quatro anos depois, já governador e candidato à reeleição, foi obrigado a disputar segundo turno contra o então juiz Odilon de Oliveira, um estreante nas urnas, vencendo uma eleição competitiva. Em 2022, sua força política voltou a aparecer na eleição de Eduardo Riedel, mas até ali foi preciso outra virada, porque Capitão Contar terminou o primeiro turno na frente. A biografia de Azambuja recomenda duas coisas simultaneamente: seria estupidez subestimá-lo e imprudência tratá-lo como invencível.

E então começou oficialmente a campanha. Vieram adesivaços, caminhadas, comitês, militância, fotografias, bandeiras e, naturalmente, releases. Na manhã desta segunda-feira chegou aquele de Reinaldo Azambuja anunciando que o candidato havia sido “recebido em clima de festa em Maracaju”. E foi impossível resistir. Ora, se um homem que governou a cidade por dois mandatos, fez dela seu principal reduto político, depois se elegeu deputado estadual, federal e governador duas vezes, mantendo sempre relações estreitas com Maracaju e seu entorno, não fosse recebido com festa justamente ali, aí sim teríamos uma notícia daquelas. O release acabou servindo de gancho para outra conversa, publicada poucas horas atrás pelo contrapontoMS, sobre propaganda eleitoral disfarçada de notícia. Ressuscitamos Diogo Theotônio, sua régua de verdade, os antigos INFORMES PUBLICITÁRIOS e a necessidade de separar o trabalho perfeitamente legítimo das assessorias do trabalho igualmente necessário de quem recebe aquele material para transformá-lo — ou não — em notícia. Terminamos com a constatação mais elementar possível: ainda bem que houve festa; notícia seria se não houvesse.

Assunto encerrado. Ou pelo menos imaginávamos. Porque foi depois de o texto entrar no ar que o leitor resolveu examinar melhor a fotografia enviada pela própria campanha e descobriu aquilo que assessoria, jornalista e inteligência artificial haviam deixado passar. Lá estava Azambuja em primeiro plano, sorridente, cercado por apoiadores, bandeiras, celulares e toda a iconografia própria de uma largada eleitoral. Só que atrás dele, dominando a parte superior da fotografia, a enorme fachada vermelha oferecia ao enquadramento uma legenda involuntária: XING LING PRESENTES. Não há montagem, não há inteligência artificial, não há dedo malicioso do contrapontoMS. É apenas o nome da loja diante da qual o fotógrafo decidiu fazer seu enquadramento. A responsabilidade pela ironia é exclusivamente do acaso.

Mas que acaso dos diabos. Depois de tantos dias tentando descobrir quais são os presentes reais e quais são apenas embrulhos da campanha, a fotografia entrega justamente aquela palavra às costas do candidato. Nelsinho fora da disputa pode parecer um presente para Azambuja, mas ninguém sabe quantos votos vieram dentro da caixa. Capitão Contar como parceiro preferencial para o segundo voto pode parecer outro, até que um aliado como Juliano Ferro abra a embalagem e coloque Vander Loubet lá dentro. Liderar pesquisas em agosto é um presentão, desde que ninguém esqueça que pesquisa fotografa um momento e eleição só termina quando o eleitor fecha a urna. Até a poderosa estrutura política construída em oito anos de governo e mantida depois da eleição de Riedel pode ser embrulhada com laço e fita. Só não existe política eleitoral com nota fiscal garantindo troca em caso de defeito.

Talvez esteja aí a melhor analogia para tudo que escrevemos nos últimos dias. O problema nunca foi negar a força de Azambuja. Fizemos exatamente o contrário. Quando fomos às urnas anteriores, os números obrigaram este jornal a abandonar algumas impressões que não resistiram aos fatos. Azambuja venceu onde imaginávamos que tivesse dificuldades, virou eleição, reelegeu-se e demonstrou enorme capacidade de articulação ao ajudar a colocar Eduardo Riedel no governo. Só que os mesmos números mostraram um candidato que já perdeu, já correu riscos, já entrou atrás numa decisão e já precisou construir viradas. O bicho-papão desaparece quando acendemos a luz, mas sobra um adversário eleitoral fortíssimo — talvez até mais perigoso exatamente porque aprendeu a sobreviver aos apertos. Favoritismo, portanto, sim. Escritura da cadeira do Senado passada em cartório, ainda não.

É por isso também que a placa fotografada em Maracaju acaba funcionando como uma pequena parábola involuntária deste início de campanha. Nos próximos dias haverá muitos presentes. Pesquisas favoráveis serão oferecidas como tendências irreversíveis; adesões serão embrulhadas como transferências automáticas de voto; comícios produzirão multidões vistas sempre pelo ângulo mais conveniente; reuniões partidárias virarão demonstrações espontâneas de força popular; qualquer caminhada produzirá abraços, selfies e crianças no colo; e cada assessoria fará aquilo para que foi contratada: escolherá o melhor enquadramento possível de seu candidato. Nada disso é escândalo. É campanha eleitoral. O cuidado começa quando o embrulho chega à redação e alguém precisa descobrir o que efetivamente existe dentro dele.

Foi exatamente isso que a velha régua de Diogo nos ensinou pela manhã. Só que agora o leitor acrescentou um capítulo que nem estava previsto. Não basta medir o texto. Às vezes é preciso olhar o fundo da fotografia. E isso vale muito além da brincadeira com uma fachada comercial. Uma fotografia de campanha é também uma escolha: mostra aquilo que está dentro do enquadramento e deixa fora todo o resto. Uma pesquisa é uma fotografia estatística, submetida a metodologia, amostra e momento. Um release é a fotografia narrativa produzida por quem deseja apresentar determinado acontecimento pelo melhor ângulo. E eleição é aquela criatura inconveniente que, de tempos em tempos, resolve sair do enquadramento.

Daqui até 4 de outubro haverá fotografia de candidato comendo pastel, tomando tereré, abraçando criança, entrando em comércio, visitando feira, ouvindo eleitor, sendo ouvido pelo eleitor e, evidentemente, sendo “recebido em clima de festa”. Algumas produzirão notícia. Outras apenas registrarão campanha. E talvez seja prudente adquirir o hábito daquele leitor que, em vez de olhar somente para o personagem que todos queriam que ele enxergasse, deixou os olhos passearem alguns centímetros para cima.

Encontrou duas palavras:

XING LING PRESENTES.

Não é prognóstico eleitoral. Não é pesquisa. Não é crítica a Reinaldo Azambuja. Não significa que alguém esteja distribuindo presentes e muito menos que os presentes sejam “xing ling”. É apenas uma placa comercial, absolutamente inocente, capturada por acaso atrás de um candidato ao Senado num ato realizado em seu principal reduto eleitoral.

Mas depois da porteira, da boiada, do bicho-papão, dos votos de Nelsinho, da dobradinha com Contar, das pesquisas, da festa em Maracaju e, finalmente, da régua de Diogo, nem a IAIA teria coragem de inventar uma coincidência dessas. E pensar que passamos a manhã inteira discutindo a propaganda eleitoral escondida dentro da notícia. Foi preciso um leitor para nos lembrar de olhar também atrás dela.

A campanha está apenas começando.

E as fachadas já estão dando manchete.

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