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terça-feira, agosto 18, 2026

Primeiro debate produz “crinicas”, azambujismo e até candidato invisível

Delcídio mexe na Rota Bioceânica, Daniel surpreende, o português sofre pequenos acidentes de percurso e Riedel descobre que é perfeitamente possível participar de um debate sem comparecer a ele

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Valfrido Silva

Debate eleitoral sempre tem uma característica extraordinária: por mais que candidatos, assessores, marqueteiros e partidos passem dias preparando números, frases de efeito, perguntas, respostas, réplicas, tréplicas e até aquela expressão facial de estadista preocupado com o futuro das próximas gerações, basta acender a luz vermelha da câmera para a realidade começar a trabalhar por conta própria. E foi mais ou menos isso que aconteceu no primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul, promovido pela Morena FM e pelo Primeira Página. Dos oito convidados, sete apareceram. O oitavo, Eduardo Riedel, conseguiu uma proeza digna de registro: faltou e, ainda assim, esteve presente durante boa parte do debate.

A organização já havia previsto em regulamento o que aconteceria caso algum candidato resolvesse não comparecer. O púlpito permaneceria vazio, devidamente identificado, seria mostrado quando chegasse a vez do ausente e, no bloco de tema livre, os presentes poderiam até formular a pergunta que fariam a ele. Portanto, Riedel não deixou simplesmente de ir. Mandou uma cadeira vazia representá-lo.

E cadeira vazia, como vimos, não pede réplica. Talvez esteja aí a primeira lição eleitoral deste primeiro tête-à-tête. Quem não comparece a um debate evita tropeçar numa resposta, não estoura o tempo, não pronuncia “crinicas”, não entra numa discussão que não gostaria de travar e não leva pergunta atravessada. Em compensação, oferece aos adversários aquilo que qualquer candidato sonha receber durante três blocos: um adversário que pode ser atacado sem interromper.

Riedel acabou transformado, assim, numa espécie de candidato invisível. Não estava lá, mas sua administração estava. Não respondeu, mas foi questionado. Não perguntou, mas provocou respostas. E, se o objetivo de uma ausência é desaparecer do acontecimento, o primeiro debate talvez tenha demonstrado exatamente o contrário: há ocasiões em que a cadeira vazia ocupa mais espaço que o candidato sentado nela.

Mas foi Delcídio do Amaral quem resolveu oferecer aos espectadores e ouvintes aquilo que todo debate precisa para não morrer de tédio: uma novidade. E, em vez de limitar-se à indispensável liturgia eleitoral de melhorar saúde, educação, segurança, emprego, renda, estrada, salário e provavelmente o clima aos domingos, Delcídio mexeu numa das vacas sagradas do discurso desenvolvimentista de Mato Grosso do Sul: a Rota Bioceânica. Sua proposta de discutir outro caminho logístico, passando pela Bolívia em direção ao Peru, pode ser considerada boa, ruim, exequível, delirante ou revolucionária — e justamente por isso merece debate. O importante é que alguém finalmente colocou sobre a mesa uma questão capaz de produzir discordância de verdade.

Debate sem divergência é entrevista coletiva com oito microfones. E então aconteceu o momento que fez este velho escriba quase derrubar o café. o Azambujismo. Sim, ele mesmo.

O neologismo que o contrapontoMS vem usando para definir não apenas Reinaldo Azambuja, mas o sistema político construído em torno dele, atravessou a tela e apareceu na boca de Delcídio do Amaral como definição de modelo de poder. Foi uma pequena emoção autoral.

Não reivindicaremos royalties porque, até onde sabemos, neologismo político ainda não paga Ecad. Mas fica registrado para os alfarrábios: azambujismo já não é apenas uma provocação deste insubordinado do jornalismo. Entrou oficialmente no vocabulário da campanha eleitoral.

Daqui a pouco algum marqueteiro encomenda pesquisa qualitativa para descobrir se o eleitor é azambujista, anti-azambujista, pós-azambujista ou azambujista não praticante. Aí, cobraremos direitos autorais.

O debate ainda reservou aquelas pequenas maravilhas que somente a transmissão ao vivo proporciona. Jeferson Bezerra falou das “crinicas” — e aqui será preciso recorrer ao vídeo antes de estabelecer definitivamente se nasceram clínicas, crônicas ou alguma revolucionária política pública situada exatamente entre as duas coisas. Lembrou os “hispitais” de Ari Artuzi.

Não há maldade nisso. Quem fala ao vivo tropeça. Este escriba, que tropeça até escrevendo e ainda dispõe da tecla delete, seria a última criatura autorizada a exigir português de Academia Brasileira de Letras de um candidato submetido a relógio, câmera, adversário e mediador. Mas eleição também é entretenimento involuntário. E “crinicas”, convenhamos, merecem pelo menos uma placa na porta.

Talvez a surpresa mais interessante tenha vindo justamente de quem entrou no debate carregando menos estrutura eleitoral e menos expectativa: Daniel Lemes. O candidato indígena apresentou em vários momentos aquela espécie de sabedoria que não costuma caber confortavelmente nos manuais de marketing político. Em vez de parecer preocupado em produzir o corte perfeito para as redes sociais, falou a partir de uma experiência e de um lugar político próprios. Isso não significa aderir às suas propostas nem transformá-lo retrospectivamente em vencedor do debate. Significa apenas reconhecer algo que as campanhas milionárias às vezes esquecem: autenticidade ainda é uma tecnologia eleitoral que não precisa de inteligência artificial.

Aliás, talvez essa tenha sido a melhor contribuição dos sete candidatos presentes. Mostrar diferenças. João Henrique Catan fez João Henrique Catan. Fábio Trad, com categoria, falou a partir do campo político que representa. Delcídio trouxe a experiência — e também o peso — de uma longa trajetória. Lucien Rezende, Renato Gomes, Jeferson Bezerra e Daniel Lemes aproveitaram uma oportunidade raríssima oferecida aos candidatos com menor exposição: dividir exatamente o mesmo cenário, o mesmo cronômetro e a mesma câmera com personagens mais conhecidos.

Por algumas dezenas de minutos, o tamanho do fundo eleitoral não aumenta o púlpito. Essa talvez seja uma das poucas instituições genuinamente igualitárias de uma campanha. Todos recebem tempo, o que cada um faz com ele já é outro problema.

E aqui está a razão pela qual debate eleitoral continua valendo a pena mesmo quando não altera um voto sequer. Não é necessariamente para descobrir quem “venceu”. Essa obsessão em transformar debate em partida de futebol talvez seja uma das maneiras mais preguiçosas de analisá-lo. Ninguém marcou três gols. Não houve VAR. E provavelmente nenhum eleitor desligou a transmissão, correu para o cartório eleitoral e tentou votar imediatamente.

Debate serve também para desarrumar candidatos. Tirá-los do vídeo editado, do release cuidadosamente escrito, da fotografia escolhida entre 247 disparos, do jingle, do teleprompter, do assessor que apaga a frase infeliz antes da publicação. Ao vivo não tem Photoshop.

E foi assim que o primeiro debate produziu aquilo que precisava produzir: uma proposta de Delcídio capaz de provocar discussão sobre a Rota Bioceânica; um neologismo do contrapontoMS promovido à categoria de vocabulário eleitoral; a espontaneidade de Daniel; algumas pérolas que ainda deverão alimentar nossas crinicas; e um governador que, justamente por não comparecer, conseguiu ser um dos personagens mais comentados.

A campanha está começando. Ainda teremos debate em que candidato esquecerá número, confundirá município, errará nome, fará pergunta que gostaria de recolher dez segundos depois e produzirá promessa que algum assessor passará quatro anos tentando explicar. Faz parte. E ainda bem. Porque, se campanha eleitoral fosse composta exclusivamente de candidatos perfeitamente treinados recitando respostas perfeitamente ensaiadas para perguntas perfeitamente previsíveis, seria muito mais econômico cancelar os debates e mandar os marqueteiros disputarem a eleição diretamente.

No primeiro, pelo menos, tivemos azambujismo, “crinicas”, uma rota querendo mudar de caminho, um indígena ensinando que simplicidade também comunica e um púlpito vazio que falou pelos cotovelos. Nada mal para uma estreia. E pensar que Eduardo Riedel nem precisou abrir a boca.


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