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segunda-feira, setembro 7, 2026

Cavala promete agora acabar com a zona de Brasília

Isa Marcondes repete o bordão que a transformou na vereadora mais votada de Dourados e acrescenta um verbo que agora terá de explicar ao eleitor: resolver

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Valfrido Silva

Uma fotografia na capa da revista Veja: Fernando Collor de Mello, de pé diante da rampa do Palácio do Planalto, puxando para fora o forro dos bolsos vazios da calça. E uma frase certeira: “O caçador de marajás.” Era março de 1988. No ano seguinte, aquele jovem governador de Alagoas, embalado pela imagem de paladino da moralidade construída com generosa ajuda da imprensa, elegeu-se presidente da República. A história acabaria como sabemos, mas a frase cumpriu sua missão. Antes que as redes sociais transformassem bordões em armas de destruição eleitoral em massa, Collor demonstrou que poucas palavras bem escolhidas poderiam fabricar um personagem, atravessar uma campanha e conduzir alguém pela rampa do poder.

Também aconteceu o contrário. Em 2002, Ciro Gomes sofreu uma derrapada fatal ao responder que o principal papel de sua então companheira, a atriz Patrícia Pillar, na campanha presidencial seria dormir com ele. Anos depois reconheceria que a brincadeira fora de muito mau gosto, mas a frase já havia cumprido seu serviço de demolição. Fernando Henrique Cardoso também tisnou a própria biografia durante a campanha de 1994, ao dizer que era “mulatinho” e tinha um “pé na cozinha”, justamente quando se discutia o racismo brasileiro. Paulo Maluf, um pouco antes, passara à história com o deplorável “estupra, mas não mata”, pronunciado em 1989, quando a palavra feminicídio ainda nem havia ganhado os dicionários. Frases podem eleger, derrotar, perseguir ou sobreviver aos seus autores. Às vezes fazem tudo isso ao mesmo tempo.

Descendo agora à planície da terra de seu Marcelino temos Isa Marcondes, a Cavala, tentando repetir em escala nacional a fórmula que a transformou na vereadora mais votada de Dourados. Se antes dizia que Dourados estava uma zona e que de zona entendia, agora apareceu finalmente no horário eleitoral de rádio e televisão — e não apenas naquela que considera a emissora mais poderosa do planeta, sua bombada “TV” do YouTube — para atualizar a geografia do bordão: “Brasília está uma zona e de zona eu entendo e resolvo.”

Isa apareceu como Isa sabe aparecer. Terninho, aprumada, loquaz e sem desperdiçar os poucos segundos concedidos pela propaganda eleitoral. Numa campanha infestada de candidatos prometendo defender a família, o município, o Estado, a democracia, Deus, a Pátria e sabe-se lá mais o quê, uma candidata que resume seu programa eleitoral numa zona já larga com a vantagem de ser lembrada. O marqueteiro foi feliz ao perceber que não seria preciso inventar uma promessa mirabolante. Bastava transferir a zona de Dourados para Brasília e acrescentar um verbo providencial: resolver.

O momento não poderia ser mais oportuno. O bordão foi lançado quando um tsunami envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça, Daniel Vorcaro, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República abalou as estruturas do Supremo Tribunal Federal. Brasília virou palco de uma crise que atravessou a Praça dos Três Poderes e chegou à campanha presidencial. Neste 7 de Setembro, enquanto Lula desfila pelo Eixo Monumental, bolsonaristas ocupam a Avenida Paulista explorando a tormenta que atingiu o STF. Dizer que Brasília está uma zona, portanto, não exige exatamente o talento investigativo de Sherlock Holmes.

E é aí que surge o pobrema, como dizia meu saudoso sogro Mané Torquato, por coincidência vizinho da nossa querida e perfumada Isa Cavala. O problema não está na zona. Está na promessa de resolvê-la. Antes de oferecer seus serviços à capital da República, a candidata poderia apresentar ao eleitor um pequeno inventário das zonas que encontrou em Dourados e efetivamente resolveu durante o mandato de vereadora.

Sua tecla predileta no teclado das prioridades é o S, não aquele citado como “floreio latino” para desvendar uma intrincada senha no livro O Segredo Final, por Dan Brown, mas o S de saúde pública. Isa denuncia, fiscaliza, grava vídeos e chega a entrar em áreas restritas de unidades de saúde para mostrar problemas que, apesar de toda a repercussão produzida nas redes sociais, continuam longe de ser solucionados. Fiscalizar é atribuição de vereadora. Denunciar irregularidades também. Mas transformar incursão cinematográfica em problema resolvido exige um salto que nem a Cavala, com toda a disposição que demonstra, conseguiu provar que sabe dar.

A menos que ela esteja se incluindo naquela curiosa relação de candidatos a deputado que apresentam “planos de governo”, esquecidos de que parlamentar não governa. Deputado federal legisla, fiscaliza, vota o Orçamento, apresenta emendas e exerce influência política. Não administra hospital, não tapa buraco nem baixa decreto para colocar Brasília em ordem. Isa pode explicar como pretende usar um mandato federal para enfrentar a bagunça que denuncia. O que não pode é tratar o verbo resolver como se bastasse pronunciá-lo diante das câmeras para que os problemas levantassem acampamento.

Cavala só não pode ser acusada de chegar a Dourados de paraquedas. Enquanto candidatos de outras regiões desembarcam por aqui atrás dos votos de eleitores que passaram quatro anos sem saber que existiam, Isa tenta fazer o trajeto inverso: sair da Câmara Municipal e alcançar a Câmara Federal. Na semana passada, por exemplo, a deputada estadual Mara Caseiro trouxe a Dourados uma tal de onda rosa, reuniu vereadores, suplentes, lideranças e cabos eleitorais locais. Está no direito dela. Deputado estadual representa Mato Grosso do Sul inteiro e candidato a deputado federal pode pedir voto de sua pequenina Eldorado a Sonora. Democracia não tem cerca municipal.

A contradição pertence menos aos visitantes do que aos anfitriões. Há gente que precisa do voto douradense para continuar representando Dourados na Assembleia ajudando, ao mesmo tempo, a construir palanques para candidatos cuja base eleitoral está em outras regiões. Depois, provavelmente os mesmos personagens reaparecerão na eleição municipal lamentando que Dourados perdeu força política, precisa ampliar sua representação na Assembleia e no Congresso e não tem gente suficiente para bater às portas do governo, dos ministérios e dos cofres de Brasília.

Não se trata de defender reserva de mercado eleitoral nem proclamar que douradense deve votar obrigatoriamente em douradense. Isso seria provincianismo de porteira. Geraldo Resende e Rodolfo Nogueira já têm mandato federal e histórico de atuação na região. Isa tenta chegar lá. Outros nomes locais também disputam espaço. Se merecem o voto é outra conversa. O eleitor decide. Convém apenas guardar algumas fotografias desta campanha para lembrar, daqui a dois anos, quem exportou votos agora e poderá tentar importar discurso sobre representatividade depois. Representatividade política não nasce em pronunciamento. Ela sai da urna.

A Cavala douradense escolhe agora outra cancha. Em vez de onda colorida ou paraquedas eleitoral, resolveu oferecer diretamente a Brasília a experiência adquirida na “zona” de Dourados. Para cumprir a promessa, precisará demonstrar mais que capacidade de produzir denúncias, vídeos e bordões. Terá de dar muitos cavalos de pau pelas curvas de Oscar Niemeyer e atravessar o Eixo Monumental até encontrar, em algum gabinete da capital, a diferença entre identificar um problema e resolvê-lo.

“Brasília está uma zona e de zona eu entendo e resolvo.” Que Brasília está uma zona, pouca gente ousaria contestar. Que a Cavala resolve, mesmo, aí já é outra história.

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