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sábado, setembro 5, 2026

A tirania cotidiana dos governantes

Séculos antes de Gandhi e Martin Luther King, um adolescente francês já havia descoberto o ponto fraco de todo tirano: a obediência voluntária. Em tempos de polarização política extrema, a pergunta permanece atual. Quem sustenta o poder autoritário?

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Anita Tetslaff*

Embora estejamos todos politicamente divididos entre extremismos opostos, a questão central, frequentemente acalorada em nosso cenário político, e negligenciada, continua sendo o principal ponto que ainda não foi abordado nos debates recentes. Por que tantas pessoas ainda apoiam líderes que desejariam limitar seus próprios direitos?

A resposta para essa contradição pode estar no século XVI, quando um jovem de apenas 18 anos, simbolizava o início de um transformações profundas. E por essa razão, ao observarmos a arena política mundial, atualmente dividida entre esquerda e direita, precisamos direcionar nossa análise para a própria polarização mundial como chave de entendimento.

Em 1548, o adolescente Étienne de La Boétie escreveu o Discurso sobre a Servidão Voluntária, um dos textos mais mordazes da história do poder e da submissão. Para o pensador francês, o segredo da tirania não era a força do governante, mas a fraqueza dos que pactuam com ele ou ela. Um único ser humano só pode dominar uma multidão, porque são os próprios dominados que lhe dão voz para propagar discursos idealistas, olhos para vigiar e braços para agredir.

Esta percepção revolucionária para a época antecipou, em séculos, o que cientistas políticos e sociólogos confirmariam posteriormente: que o poder não é um objeto que se possui, mas uma relação que se estabelece continuamente entre governantes e governados.

A obra de La Boétie identifica dois mecanismos para a manutenção do poder autoritário: o hábito e o medo. Enquanto o hábito opera pela naturalização silenciosa e passiva das regras, o medo atua como coerção emocional e imediata em que o governado obedece por temor à violência, à exclusão social ou à perda da própria vida, enxergando a submissão como o menor dos males para garantir sua integridade.

O primeiro mecanismo (o hábito) atua de forma sutil, fazendo com que aqueles que nascem dentro de uma ordem específica naturalizem as regras impostas, confundindo submissão com escolha. Já o medo, por sua vez, alimenta a lógica da sobrevivência: “Quando você acredita que está escolhendo sobreviver, as pessoas obedecem sem pensar que é submissão”, explica o filósofo. O controle e a liberdade passam a ser enquadrados como sobrevivência, e a obediência começa a parecer proteção; desta forma, distorce tanto a razão quanto a vontade.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua teoria do habitus, de 1980, corrobora essa visão ao demonstrar como as estruturas sociais são internalizadas pelos indivíduos, tornando-se disposições duráveis que orientam práticas e percepções. Essa internalização faz com que as pessoas reproduzam inconscientemente as condições de sua própria dominação.

La Boétie descreve uma estrutura, no formato de pirâmide, de apoio ao poder: ao redor do líder, um pequeno círculo de pessoas altamente favorecidas com privilégios, e cada uma delas dá acesso a centenas de outras pessoas que têm milhares de seguidores.

Essa lógica também foi apoiada por Vilfredo Pareto em sua teoria das elites, de 1935, que afirma que a sociedade está sempre sob a liderança de um grupo dominante, e por Charles Wright Mills em 1956, quando descreve um grupo de “elite do poder” nas esferas econômica, política e militar, que estão todos na mesma posição e precisam se manter onde estão. São as microvantagens que muitos recebem em troca de sua própria consciência.

O pensador francês já identificava teatros, banquetes e diversões como instrumentos de domesticação política. No século XXI, essas distrações assumem novas formas que são as redes sociais, serviços de streaming, jogos eletrônicos e o entretenimento digital massivo.

No cenário político atual, a análise de La Boétie ganha contornos relevantes. De um lado, movimentos de extrema direita em todo o mundo têm conquistado adeptos que, paradoxalmente, apoiam líderes que restringem liberdades em nome da segurança ou da tradição de costumes. De outro, setores progressistas frequentemente reproduzem dinâmicas de obediência a lideranças que prometem transformação social, mas mantêm estruturas hierárquicas de poder.

O cientista político Steven Levitsky, em “Como as Democracias Morrem”, de 2018, observa que líderes autoritários contemporâneos raramente chegam ao poder por meio de golpes militares. Em vez disso, são eleitos democraticamente e gradualmente corroem as instituições democráticas. Este processo depende da cumplicidade ou passividade de uma população que vive uma distopia, e de elites que preferem benefícios imediatos à defesa de princípios democráticos.

A historiadora Anne Applebaum, em “O Crepúsculo da Democracia”, de 2020, aponta que o apelo de movimentos autoritários modernos reside precisamente na oferta de simplicidade em um mundo complexo. Os líderes populistas prometem restaurar uma ordem perdida, oferecendo respostas fáceis para problemas difíceis, e muitos aceitam esse pacto em troca de uma ilusória segurança.

A solução proposta por La Boétie é radical em sua simplicidade: não basta atacar o poder, é preciso deixar de sustentá-lo. “A decisão é não mais servir, mas ser livres”. “Retire a base e o gigante cai pelo próprio peso”.

Este princípio foi adotado por movimentos de resistência ao longo da história. Mahatma Gandhi transformou a não cooperação em ação coletiva, organizando boicotes à administração colonial britânica e liderando a histórica Marcha do Sal em 1930. Martin Luther King Jr. combinou consciência moral com ação não violenta contra a segregação racial nos Estados Unidos, compreendendo que um sistema injusto depende de pessoas que o façam funcionar.

A pergunta de La Boétie ressoa através dos séculos: quem é o verdadeiro tirano? Talvez a resposta mais incômoda seja que a tirania não reside apenas no governante, mas na relação de obediência que muitas pessoas de bem estabelece com ele.

No atual cenário de polarização política, onde campos opostos se definem mais pela rejeição ao adversário do que por propostas construtivas, a reflexão do jovem francês nos convida a questionar não apenas os líderes que escolhemos, mas o próprio ato de delegar nosso poder de decisão. Cabe a cada um de nós despertar do sono da servidão voluntária e assumir a responsabilidade por nossa própria liberdade.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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