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sexta-feira, setembro 11, 2026

Geraldo e Rodolfo têm R$ 4,57 milhões, só do fundão eleitoral, para buscar a reeleição em família

Rodolfo e Geraldo tocam duas lavouras familiares irrigadas com R$ 4,57 milhões; Gianni e Bárbara terão de demonstrar na urna e nas contas que candidaturas em família não são cartões adicionais

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Valfrido Silva

Os deputados Rodolfo Nogueira e Geraldo Resende são separados pela idade, pela biografia, pela origem política e por quase tudo — menos por Dourados, pela Câmara Federal e pelos cerca de R$ 1,5 milhão que cada um recebeu dos respectivos partidos para buscar a reeleição. O primeiro é o gordinho do Bolsonaro, promovido a guardião político até da tornozeleira eletrônica do ex-presidente. O segundo construiu a imagem do menino pobre que vendeu picolés, engraxou sapatos, trabalhou como jornaleiro e tornou-se médico. Agora, os dois aparecem lado a lado em outra coincidência: além da própria candidatura, comandam lavouras familiares irrigadas com dinheiro do fundão eleitoral. Rodolfo lançou a mulher, Gianni Nogueira, para deputada estadual. Geraldo lançou a filha, Bárbara Resende, para a mesma cadeira. Juntas, as duas famílias dispõem de R$ 4,571 milhões.

Rodolfo coleciona curiosas responsabilidades familiares e políticas. Sempre que se refere à mulher nos discursos eleitorais, anuncia que a vice-prefeita de Dourados e agora candidata à Assembleia é quem cuida de seu cartão de crédito. Na verdade, costuma ser mais enfático: “Ela é dona do meu cartão de crédito.” A declaração certamente pretende demonstrar confiança conjugal, desprendimento masculino e, quem sabe, modernidade administrativa no orçamento doméstico. Agora que os valores do fundo eleitoral foram revelados, contudo, o cartão da família Nogueira ganhou uma extensão milionária — mas paga pelo contribuinte, não por Rodolfo. O deputado contabiliza R$ 1,505 milhão em receitas e Gianni recebeu outros R$ 600 mil do PL. Total da casa: R$ 2,105 milhões.

Geraldo pauta sua biografia política, desde sempre, pela trajetória do menino pobre que venceu todas as dificuldades até formar-se em medicina. É uma história respeitável e transformada, com compreensível insistência, em patrimônio eleitoral. Sua postura partidária é igualmente sofrida. Progressista desde criancinha, passou até pelo PPS, sucedâneo do antigo Partido Comunista Brasileiro, mas carrega uma espécie de carma político que o obriga a conviver sucessivamente com personagens da direita e, mais recentemente, da extrema direita. Foi aliado de Reinaldo Azambuja no PSDB, mudou-se para o União Brasil e agora busca o sétimo mandato consecutivo de deputado federal numa coligação em que precisa dividir palanque, santinho e projeto de poder com os novos bolsonaristas, e lá está, de novo, o cacique líder do azambujismo.

O União Brasil destinou R$ 1,5 milhão a Geraldo. Sua filha Bárbara, advogada de 28 anos e candidata pela primeira vez a deputada estadual, foi contemplada com R$ 966,6 mil — a maior cota concedida pelo partido a uma candidatura à Assembleia, empatada com a da ex-deputada Dione Hashioka. A família Resende dispõe, portanto, de R$ 2,466 milhões, superando os Nogueira e ocupando o primeiro lugar entre os cinco núcleos familiares irrigados pelo fundão na coligação governista.

Os dois grupos familiares de Dourados administram, juntos, dinheiro suficiente para imprimir muito santinho, abastecer muitos veículos, contratar equipes, produzir vídeos, impulsionar conteúdos dentro das regras e levar dois sobrenomes conhecidos a praticamente todos os recantos de Mato Grosso do Sul.

Por isso que reaparece agora uma pergunta feita desde o lançamento das duas dobradinhas. Gianni e Bárbara aceitaram essa empreitada para valer, com projetos próprios e estruturas destinadas a elegê-las, ou suas campanhas funcionarão apenas como reforço eleitoral para o marido e o pai?

A pergunta não significa antecipar irregularidade. Gianni já é vice-prefeita de Dourados, tem presença política e pode reivindicar uma trajetória própria, embora ainda não tenha sido testada individualmente nas urnas. Bárbara estreia numa eleição, mas tem formação, idade e pleno direito de tentar construir a própria carreira. Esposa de deputado não está condenada a ser apenas esposa. Filha de político também não precisa carregar para sempre uma certidão de dependência eleitoral.

O problema começa quando o dinheiro público entra na relação familiar. As contas das candidaturas são obrigatoriamente separadas. Cada despesa precisa ter finalidade eleitoral, documentação e beneficiário identificável. Atos conjuntos, materiais compartilhados, equipes, estruturas e propaganda não podem transformar o caixa de uma campanha numa extensão informal da outra. O cartão doméstico pode até ter dona. O cartão do fundão não admite adicional sem prestação de contas.

Os valores recebidos pelas duas candidatas indicam que PL e União Brasil não as tratam oficialmente como meras figurantes. Gianni recebeu R$ 600 mil; Bárbara, quase R$ 1 milhão. São quantias capazes de financiar campanhas competitivas à Assembleia. Se foram lançadas para disputar de verdade, terão meios para fazê-lo. Se servirem principalmente para ampliar a exposição de Rodolfo e Geraldo, a movimentação das despesas certamente deixará rastros.

É aí que entra a Justiça Eleitoral. Não para presumir culpa, condenar por parentesco ou impedir campanhas conjuntas, mas para examinar com atenção redobrada onde termina a despesa da mulher e começa o benefício do marido; onde termina a campanha da filha e começa a promoção do pai. A legislação permite doações entre candidaturas dentro das regras e autoriza atividades compartilhadas, desde que tudo seja declarado corretamente. O que não permite é dinheiro destinado a uma candidatura financiar clandestinamente outra.

Caso falte equipamento para essa fiscalização, a Justiça Eleitoral poderá solicitar um empréstimo ao contrapontoMS. O site sobrevive sem fundo eleitoral, sem fundo partidário e, em muitas ocasiões, sem fundo nenhum, mas conserva uma geringonça de reconhecida utilidade pública: a lupa deixada de herança ao insubordinado do jornalismo pelo saudoso compadre Antônio Tonanni. É um instrumento antigo, analógico e tão poderoso que faria Sherlock Holmes pedir aposentadoria.

A lupa será especialmente necessária porque o fundão não pertence a Rodolfo, Geraldo, Gianni ou Bárbara. Os partidos decidiram a distribuição, os candidatos administram os recursos e a Justiça examina as contas. Mas quem paga a fatura é o eleitor. E, ao contrário do cartão de crédito de Rodolfo, esse cartão não tem apenas uma dona. Tem milhões de donos.

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