Valfrido Silva
A agricultura familiar costuma olhar para Brasília à espera de crédito, custeio e alguma proteção contra as intempéries. Mas, lavoura familiar da política sul-mato-grossense acaba de receber quase R$ 10 milhões do fundo eleitoral, dinheiro suficiente para enfrentar a estiagem de votos, espalhar placas, contratar cabos eleitorais e impedir que as dobradinhas entre parentes, anunciadas inicialmente como demonstração de força, acabem produzindo uma colheita menor que a plantada.
Quando maridos e mulheres, pais e filhas, irmãos e casais decidiram disputar simultaneamente vagas na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa, surgiu uma dúvida elementar: o sobrenome multiplicaria votos ou apenas dividiria o mesmo eleitorado? A política está cheia de histórias de famílias que acreditaram possuir votos suficientes para eleger dois parentes e descobriram, depois da apuração, que mal tinham para um. O tiro poderia sair pela culatra, de novo? Agora se sabe que, pelo menos em matéria de munição financeira, as cinco famílias mais bem contempladas da coligação governista não terão esse problema.
Dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral até 8 de setembro mostram que dez candidatos de cinco núcleos familiares receberam juntos R$ 9,955 milhões, praticamente tudo proveniente dos partidos e, portanto, do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. Não existe ilegalidade em parentes disputarem a mesma eleição nem em receberem recursos partidários. As contas são separadas e cada campanha deve responder pelos próprios gastos. Mas o eleitor também tem o direito de observar onde os partidos decidiram concentrar o dinheiro público e quais sobrenomes foram considerados investimentos mais seguros.
A maior lavoura é a dos Resende. Geraldo, candidato à reeleição para deputado federal, recebeu R$ 1,5 milhão. Sua filha Bárbara, estreante na disputa pela Assembleia, ganhou R$ 966,6 mil. Total familiar: R$ 2,466 milhões. Logo depois aparecem os Nogueira, de Dourados. Rodolfo recebeu R$ 1,505 milhão para buscar a reeleição à Câmara Federal e sua mulher, a vice-prefeita Gianni, outros R$ 600 mil para tentar uma cadeira estadual. A dobradinha dispõe de R$ 2,105 milhões para provar que o bolsonarismo douradense comporta duas safras dentro da mesma propriedade.

Rose e Rinaldo Modesto receberam juntos R$ 1,983 milhão. O casal Dione e Roberto Hashioka soma R$ 1,796 milhão, colhido em dois partidos da mesma coligação: ela disputa a Assembleia pelo União Brasil; ele, a Câmara Federal pelo Republicanos. Tenente Portela e sua filha Ana completam a relação, com R$ 1,605 milhão do PL. São famílias diferentes, partidos diferentes e uma coincidência muito lucrativa: todas foram reconhecidas pelas direções partidárias como eleitoralmente prioritárias.
Em Dourados, o efeito é ainda mais interessante porque duas dessas plantações avançam sobre o mesmo terreno. Geraldo Resende e a filha Bárbara disputam espaço com Rodolfo e Gianni Nogueira. Os pais de família concorrem à Câmara Federal; as herdeiras políticas, à Assembleia. Cada dupla tentará convencer o eleitor de que votar em dois integrantes da mesma casa representa coerência, fortalecimento regional e economia de sobrenome no santinho.
O fundão reduz um dos maiores riscos dessas dobradinhas. Com dinheiro suficiente, cada integrante da família pode montar estrutura própria, alcançar regiões diferentes e tentar ampliar o eleitorado para além da base doméstica. Aquilo que poderia virar canibalização transforma-se em operação conjugada: o federal puxa votos para o estadual, o estadual abre caminho para o federal e o mesmo sobrenome circula duas vezes pelas redes sociais, pelos comícios e pela propaganda.
Mas dinheiro não resolve tudo. Pode comprar combustível, impressão, equipe, produção audiovisual e impulsionamento dentro das regras eleitorais. Não compra automaticamente simpatia nem impede o eleitor de enxergar a tentativa de transformar mandato em patrimônio familiar. Quanto mais o partido concentra recursos numa família, maior será também a cobrança sobre o critério utilizado para irrigar algumas plantações e deixar outras candidaturas esperando chuva.
No União Brasil, Geraldo Resende, Rose Modesto, Bárbara Resende, Dione Hashioka e Rinaldo Modesto ficaram com 54% dos R$ 8,243 milhões enviados pela direção nacional aos candidatos sul-mato-grossenses da legenda. No PL, Rodolfo Nogueira e Tenente Portela ocupam, respectivamente, a segunda e a primeira vice-presidências do diretório estadual. Rodolfo recebeu R$ 1,5 milhão do partido; Portela, R$ 1 milhão. Gianni Nogueira e Ana Portela receberam R$ 600 mil cada uma.
Nada disso constitui irregularidade por si só. A distribuição do fundo é decisão partidária, respeitadas as cotas legais destinadas às candidaturas femininas e negras. Mas, como o dinheiro é público, a escolha também precisa suportar o escrutínio público. O sobrenome pode não constar entre os critérios formais, porém aparece com invejável frequência entre os maiores cheques.
Quando as dobradinhas foram lançadas, havia o receio de que duas candidaturas da mesma família acabassem disputando os mesmos votos e enfraquecendo uma à outra. Com quase R$ 10 milhões em adubo eleitoral, os partidos resolveram fazer sua parte para evitar a quebra da safra.
Resta saber se o eleitor comprará a produção. Na agricultura familiar, o produtor planta e pede ajuda ao governo. Na lavoura familiar da política, o governo já entrou com o fundão. E a família espera ficar com a colheita.
