Valfrido Silva *
O deputado Zé Teixeira saiu das urnas com 54.080 votos no alforge, o nono mandato consecutivo assegurado e um título que nenhum de seus 23 futuros colegas poderá ignorar: foi o deputado estadual mais votado de Mato Grosso do Sul. Agora, se resolver aproveitar a boiada enquanto a porteira continua aberta, poderá buscar outra marca histórica. Para presidir a Assembleia Legislativa não precisará repetir os 54 mil votos conquistados nas ruas. Bastará convencer 13 colegas deputados. Ele garante que já tem 12. Convenhamos: para quem acaba de ser escolhido por um eleitorado do tamanho de muitas cidades sul-mato-grossenses, pedir um votinho a cada colega parece quase troco de leilão.
Não seria apenas mais um cargo para ornamentar a longa biografia de um parlamentar que, ao fim do próximo mandato, terá passado 36 anos na Assembleia. Seria a reconquista, de Dourados, de um espaço que raramente atravessou a bolha do poder montada em torno de Campo Grande e de algumas lideranças tradicionais. Desde a divisão do antigo Mato Grosso, somente Walter Benedito Carneiro, figura histórica da política douradense, conseguiu chegar à presidência da Casa. Antes dele, quando o mapa ainda reunia o Norte e o Sul sob a mesma estrela solitária, outro político de Dourados, José Cerveira, comandou a Assembleia em Cuiabá, entre 1971 e 1972.
Cerveira encerraria a carreira política como prefeito de Dourados. Vice de José Elias Moreira, assumiu o município depois que o titular renunciou, em 1981, para disputar o governo na primeira eleição direta do novo Estado. É uma dessas voltas que a história dá sem avisar aos protagonistas: presidiu o Legislativo do Mato Grosso uno e, anos depois, sentou-se na Prefeitura de uma cidade que já pertencia a outro Estado. Walter Carneiro, por sua vez, presidiu a Assembleia sul-mato-grossense e deixou uma marca ainda maior ao participar da consolidação institucional do Estado recém-criado. Depois deles, Dourados continuou elegendo deputados, produzindo lideranças e enviando votos, mas a cadeira principal do Legislativo não voltou para cá.
Quem transformou a presidência da Assembleia quase numa extensão de seu gabinete foi Londres Machado. O também octogenário deputado de Fátima do Sul presidiu a Casa sete vezes, governou interinamente o Estado em duas oportunidades e construiu ao redor de si uma espécie de domínio territorial sobre o Legislativo. Londres não precisava levantar a voz para lembrar que antiguidade é posto. Durante décadas, quando se falava em comando da Assembleia, seu nome aparecia antes mesmo de a frase terminar.
É justamente essa bolha que Zé Teixeira pode furar agora. Não como um jovem rebelde tentando derrubar os veteranos, mas como alguém ainda mais antigo que boa parte das tradições instaladas ali. Zé e Londres pertencem à mesma categoria rara dos políticos que parecem ter abolido a aposentadoria por falta de espaço na agenda. Ambos chegam à nova legislatura octogenários, reeleitos e com a autoridade de quem viu passar governadores, partidos, modas administrativas, crises, alianças e adversários. A diferença é que Zé retorna carregando a maior votação do Estado.
Os 54.080 votos não lhe conferem automaticamente a presidência ao douradense. A Assembleia possui uma urna própria, bem menor, onde cada eleitor conhece pessoalmente o candidato, negocia espaços na Mesa Diretora, reivindica comissões e consulta o governador antes de apertar o botão. Ali, a matemática raramente é apenas matemática. Treze votos podem custar mais articulação que 54 mil, porque cada deputado representa um projeto, um partido, uma região e, em determinados casos, várias ambições guardadas no mesmo gabinete.
Mas Zé Teixeira possui mercadoria suficiente para essa negociação. Tem nove mandatos, trânsito entre prefeitos, relações construídas ao longo de décadas, experiência na Mesa Diretora, capilaridade municipalista e a condição de integrante do PL, partido que saiu fortalecido das urnas. Acima de tudo, tem aquilo que político nenhum consegue falsificar depois da apuração: voto. Muito voto. O bastante para legitimar sua eventual candidatura, longe, pois, de ser um capricho pessoal, mas reconhecimento ao parlamentar mais sufragado e à região que mais uma vez lhe garantiu força eleitoral.
Também poderia surgir como nome de consenso. A nova Assembleia reunirá veteranos, estreantes, ex-governadores, representantes da direita, da esquerda, do centro e de todos os atalhos existentes entre essas posições. Numa Casa potencialmente fragmentada, o decano de fala direta, relações antigas e interesses conhecidos pode servir como ponto de acomodação. Ele não precisa prometer revolução. Sua candidatura poderia ser apresentada justamente como homenagem à experiência, ao municipalismo e ao eleitorado que o colocou no alto da montanha.
Resta saber se Zé Teixeira deseja subir o último trecho. Ele já confessou, lá atrás, o sonho de ser prefeito de Dourados, falou em aposentadoria, reconsiderou, disputou novamente e saiu das urnas maior do que entrou. Talvez considere suficiente administrar as invernadas, distribuir emendas, orientar aliados e cumprir o nono mandato integralmente. Mas políticos longevos não acumulam votos para deixá-los descansando no cofre. Transformam votação em poder, e poder político, como se sabe, é gado que perde peso quando fica parado.
A presidência da Assembleia colocaria Zé Teixeira na linha sucessória estadual, devolveria à Grande Dourados uma posição ocupada apenas por Walter Carneiro desde a criação de Mato Grosso do Sul e acrescentaria ao seu currículo uma marca à altura de nove mandatos. Seria também uma maneira de lembrar que o Estado não termina no Parque dos Poderes e que o interior não precisa comparecer à capital apenas para entregar votos, reivindicações e bois gordos.
Para ser o mais votado do Estado, precisou percorrer dezenas de municípios e convencer mais de 54 mil eleitores. Para ser presidente da Assembleia, precisará de apenas 13 colegas. Depois de uma boiada daquele tamanho, reunir esse pequeno lote no curral legislativo não parece missão das mais difíceis. Zé Teixeira só não presidirá a Assembleia se não quiser disputar. Porque voto, experiência e história para reivindicar a cadeira ele tem de sobra.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
