O Paraguai mergulhou em uma grave crise política e financeira nesta quinta-feira (5), com a renúncia do presidente Santiago Peña, depois que a intervenção no Ueno Bank desencadeou uma onda de protestos, questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro e acusações de conflitos de interesses envolvendo o governo.
A crise ganhou proporções nacionais depois que o Banco Central do Paraguai assumiu o controle do Ueno, uma das maiores instituições financeiras digitais do país, em 3 de novembro. A medida foi adotada após a constatação de que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo legal exigido. O procedimento de resolução busca preservar os ativos e proteger os depositantes.
Com aproximadamente 3 milhões de clientes, o equivalente a cerca de 60% da população adulta paraguaia, o banco teve suas operações suspensas, deixando correntistas temporariamente sem acesso às contas, cartões e serviços de transferência. A instituição também administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo cerca de US$ 355 milhões vinculados ao sistema previdenciário estatal.
O episódio provocou manifestações em Assunção e outras localidades, com correntistas, aposentados e trabalhadores cobrando acesso ao dinheiro e explicações das autoridades. A crise também atingiu o mercado financeiro e colocou sob pressão a imagem do Paraguai como ambiente seguro para investimentos.
A ligação entre o banco e o governo ampliou a dimensão política do escândalo. Peña foi sócio do grupo empresarial controlador do Ueno até março de 2025. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, por sua vez, havia dirigido a instituição financeira que antecedeu o Ueno. Carvallo deixou o cargo a pedido do próprio presidente, em meio aos questionamentos sobre a fiscalização do banco.
O Ministério Público também abriu investigações sobre possíveis irregularidades. Oito executivos ligados à instituição foram alvo de medidas judiciais, enquanto as autoridades passaram a examinar operações de crédito envolvendo empresas relacionadas ao grupo controlador.
A oposição apresentou um pedido de impeachment contra Peña, apontando suspeitas de conflito de interesses e responsabilidade política pela crise. Nesta quinta-feira, o presidente anunciou sua renúncia, alegando a necessidade de preservar a estabilidade do país e as instituições democráticas. Minutos depois, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, por 78 votos a zero, o processo de impeachment, encaminhando a decisão ao Senado.
A turbulência tem repercussão especial para os interesses brasileiros. Nos últimos anos, o Paraguai tornou-se um destino atraente para empresários e investidores do Brasil, interessados nas condições tributárias, nos custos de produção e nas oportunidades oferecidas pelo país vizinho. A crise do Ueno, entretanto, levanta questionamentos sobre a segurança institucional e os mecanismos de fiscalização que sustentam essa imagem.
A dimensão dos eventuais prejuízos de investidores brasileiros diretamente ligados ao banco ainda precisa ser esclarecida. O que já está em evidência é o impacto da crise sobre a confiança no ambiente de negócios paraguaio.
A situação será acompanhada de perto também pelos países envolvidos na integração regional, especialmente diante da importância estratégica do Paraguai para a Rota Bioceânica, corredor que deverá aproximar Mato Grosso do Sul dos portos do Pacífico e dos mercados asiáticos.
contrapontoMS, com agências internacionais
