Valfrido Silva*
Calma aí, “patriotas”! Antes que alguém comece a fazer as malas de volta para o Brasil, convém separar o joio do trigo. A crise que sacode o Paraguai é grave, derrubou o presidente Santiago Peña e expôs fragilidades no sistema financeiro e nas relações entre o poder político e os negócios privados. Mas a intervenção no Ueno Bank não significa que o país vizinho tenha perdido sua vocação para o desenvolvimento ou deixado de ser uma alternativa econômica atraente na América do Sul. Uma coisa é a quebra de um banco; outra, bem diferente, é a quebra de um país.
O Paraguai continua reunindo condições que despertam o interesse de empresários e investidores estrangeiros, particularmente brasileiros: tributação competitiva, custos de produção atraentes, disponibilidade de energia e localização estratégica. Não é pouca coisa. A ideia de uma nova Suíça latino-americana pode até carregar uma dose generosa de entusiasmo, mas o país tem ativos reais e perspectivas de crescimento que não desaparecem com a crise de uma instituição financeira.
O problema é que o Ueno Bank não era exatamente um banco qualquer. Com aproximadamente 3 milhões de clientes e a administração de cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, a instituição ocupava posição de destaque no sistema financeiro paraguaio. Sua intervenção, depois de descumprir os índices mínimos de solvência, atingiu milhões de correntistas e provocou uma crise de confiança. E, como se não bastasse, o episódio trouxe à tona as ligações empresariais do grupo controlador com o presidente Santiago Peña, que havia sido sócio da holding até março de 2025.
O desfecho foi politicamente devastador. Peña anunciou sua renúncia, enquanto a Câmara dos Deputados aprovava, por unanimidade, a abertura de processo de impeachment. O presidente que prometia reconstruir um grande Paraguai acabou deixando o cargo no meio de uma tempestade financeira e institucional. A crise ainda precisa de desdobramentos e investigações, mas já produziu um estrago considerável na imagem do país.
E aqui entra uma curiosa coincidência de destinos latino-americanos. No Paraguai, a crise de um banco acabou derrubando o presidente. No Brasil, a sucessão de escândalos envolvendo o universo financeiro e político também contribuiu para implodir um projeto de continuidade familiar — a pretensa dinastia Bolsonaro — que vinha sendo anunciado em prosa, verso e motociata. O Messias continua preso, perdeu o comando da sucessão e seus herdeiros mais conhecidos foram procurar abrigo sob o manto do Império Americano.
Bolsonaro I, o Nantes de nossas crônicas, depois da derrota eleitoral, atravessou fronteiras e foi parar nos Estados Unidos, onde o irmão Bolsonaro II, já havia encontrado seu próprio refúgio. Donald Trump chegou a declarar que Flávio poderia permanecer em território americano pelo tempo que quisesse. A hospitalidade imperial, entretanto, pode depender também dos humores da política americana. A recente onda azul democrata nas urnas acrescenta uma variável nada desprezível ao futuro dessa proteção.
Mas não convém confundir as duas histórias, nem decretar o fim das oportunidades paraguaias por causa do Ueno. O país continua sendo vizinho, parceiro comercial importante e peça estratégica para a integração sul-americana. Para Mato Grosso do Sul, especialmente, a estabilidade paraguaia interessa diretamente. A Rota Bioceânica passa por ali, e o futuro da conexão entre o Centro-Oeste brasileiro e os mercados asiáticos depende também da segurança institucional e econômica dos países envolvidos.
Portanto, nada de perder a fé na nova Canaã. O que aconteceu em Assunção é um alerta sobre os riscos de misturar dinheiro público, interesses privados e poder político sem a fiscalização necessária. Serve para o Paraguai, serve para o Brasil e, convenhamos, serve para qualquer país que pretenda vender ao mundo uma imagem de paraíso dos investimentos.
O balanço dessa aventura paraguaia de “patriotas” brasileiros, portanto, está longe de significar uma conta encerrada. Além do desgaste político de ver ruir o governo de um aliado ideológico, há o prejuízo de brasileiros que apostaram suas economias no sistema financeiro paraguaio, entre eles empresários e investidores ligados ao agronegócio. A promessa de uma Canaã de oportunidades, com impostos camaradas e ambiente favorável aos negócios, ganhou subitamente um capítulo de pesadelo bancário. Para quem atravessou a fronteira em busca de segurança e prosperidade, descobrir que o paraíso também pode ter o caixa fechado é uma ironia e tanto.
Afinal, até a Suíça, se quiser continuar sendo Suíça, precisa cuidar dos seus bancos. E o Paraguai, para ser a nova Suíça latina, terá de demonstrar que sua prosperidade não depende da saúde financeira de um único banqueiro nem da permanência de um presidente no palácio.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
