Laerte Tetila*
Neste país, em cidades pequenas e pobres, já não há quem não perceba a profusão de shows sertanejos, com cachês altíssimos e com artistas montados na grana. E quanto ao povo? Bem, o povo que se emocione com a explosão de sons, luzes, cores, ainda que carente de tudo: postos de saúde, médicos, salas de aula, creches, bibliotecas, saneamento básico, enfim. É a emoção sugando os recursos de uma gente humilde, que não sabe o quanto está sendo usada para fazer fortunas de artistas que se dizem sertanejos.
Pergunta-se: de onde sai tanta grana assim, tratando-se de cidades pequenas e pobres? Será que sai, basicamente, das emendas Pix, desviadas de suas finalidades, infelizmente? Essa modalidade de emendas foi criada para desburocratizar verbas federais e acelerar a aplicação de políticas públicas, nesses locais, mas tornaram-se, bem dizer, “cheques em branco” nas mãos de prefeitos corruptos, dada as dispensas de licitação, nas prestações de contas. Daí as farras sertanejas milionárias com o dinheiro do povo mais sofrido deste país.
A propósito, centenas dessas emendas vêm sendo destinadas a cidades pequenas e pobres, através de deputados federais e senadores, obviamente, da extrema-direita. E nada mais precioso para garantir as suas reeleições do que, em noites apoteóticas, posarem para a massa pobre e despolitizada, ao lado de artistas famosos, de projeção nacional, exaltando seus nomes.
Artistas esses que fazem críticas das mais contundentes à Lei Rouanet, já que por ela são obrigados a prestar contas. Focados no vale-tudo neoliberal, chega a ser patológica a ânsia, a “auri sacra fames” desses artistas. Notícia alvissareira é saber que já está em campo o Ministro Flávio Dino, tentando passar a limpo tamanha indecência, já com parlamentares federais condenados.
Jogando aberto, amigos e amigas, o que era para fortalecer as políticas públicas e dar mais dignidade ao povo carente, veio a se tornar a farra dos cachês, com milhões drenados para as contas de quem, só por serem artistas, deveriam ter a sensibilidade de não avançarem, feito gafanhotos, sobre as verbas que deveriam ser destinadas a programas para atenderem a população humilde.
Laerte Tetila é geógrafo, foi professor e chefe de Departamento/UFMS, vereador, deputado estadual e prefeito de Dourados-MS. Mestre pela USP, autor de cinco livros, dentre eles, “Meio Ambiente – Mato Grosso do Sul em Foco” e “Que Cristianismo é Esse?”
