Valfrido Silva*
O bom-dia de um amigo historicamente progressista, recentemente contaminado pelo vírus bolsonarista, chegou neste sábado com a disposição de resolver os problemas da Justiça antes mesmo de o café esfriar: “Exemplo do Paraguai. Isso que é justiça. Roubou vai pra cadeia”. Respondi com a malícia que esses 56 anos de jornalismo ainda não conseguiram aposentar: “Pois é, aqui os caras correm para os EUA kkk”. Era uma provocação com endereço conhecido. Mas a conversa, que começara na cadeia, ganhou asas, atravessou o oceano e foi terminar no Mar Vermelho. Meu amigo lembrou os dólares que também viajam, distribuiu críticas aos candidatos, ressuscitou a história do dedo de Lula e convocou o chefe de imprensa de Moisés. Segundo sua interpretação, aquele assessor teria transformado um trecho seco numa imensidão de água capaz de engolir os soldados egípcios. Sobrou para a imprensa: estaria interessada na informação, não na verdade.
A tréplica é reveladora. Diante da pergunta sobre os nossos que escapam, a resposta se alarga até caber todo mundo. A responsabilidade individual dissolve-se numa indignação geral, dessas em que todos são culpados e ninguém precisa responder pelo personagem que motivou a conversa. Há brasileiros que fogem, há dólares que voam, há jornalistas que mentem e há um assessor bíblico com poderes extraordinários. Só ficou faltando explicar por que o rigor anunciado no bom-dia perde o fôlego quando chega à porta dos aliados. A cadeia, tão simples na primeira mensagem, já precisava de uma assessoria de comunicação.
A entrevista de Flávio Nantes Bolsonaro à Folha de S.Paulo, publicada na sexta-feira e aqui repicada, oferece um pequeno tratado dessa elasticidade. Lula recebe o carimbo de “descondenado”; Jair poderá receber seu apoio em 2030, se recuperar a elegibilidade. Convém não misturar os institutos: recuperar direitos políticos não significa necessariamente anular uma condenação. A incoerência está na disposição moral do entrevistado. Para o adversário, a reversão judicial é uma desonra permanente; para o pai, permanece aberta a perspectiva de retorno. Na alfaiataria política de Nantes, a mesma esperança que veste mal o petista pode render um belo terno para o Messias.
As condenações de Lula foram anuladas por incompetência do juízo de Curitiba. Aliás, pelos “bons serviços”, Sérgio Moro virou ministro da Justiça de Bolsonaro. No processo do triplex, o Supremo também reconheceu a parcialidade de Moro. Não houve, nessas decisões, absolvição de mérito. Houve o reconhecimento de que a Justiça desrespeitara condições necessárias para julgar. Isso importa porque um processo não se torna legítimo pela satisfação que sua sentença proporciona à plateia. Juiz competente e imparcial não é mimo oferecido ao acusado. É proteção contra um poder que, sem limites, pode escolher primeiro o condenado e providenciar depois o julgamento. Vale para Lula, para Jair e para o sujeito que não tem sequer dinheiro para contratar advogado.
Jair, o Messias, foi condenado a 27 anos e três meses pela trama golpista, incluindo golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Sua defesa apresentou revisão criminal, instrumento legal para contestar condenação definitiva. Tem esse direito. A dificuldade é ouvir o filho transformar a reversão das condenações alheias em insulto enquanto a defesa do pai procura desfazer a própria. Se a revisão prosperar, qual será o verbete autorizado no dicionário da família? Justiça restaurada? Perseguição desmascarada? “Descondenado”, pelo visto, é palavra que só pode atravessar a rua numa direção.
Há outras cambalhotas na entrevista. Nantes descreve um país submetido ao arbítrio, embora o pai tenha sido condenado por uma tentativa de romper a ordem democrática. Insinua fraude eleitoral, admite não ter provas e preserva planos de disputar novas eleições. Diz que o TSE está dominado pelo governo, apesar de sua presidência e vice-presidência estarem com ministros indicados por Jair. E o mandato de senador continua sendo seu: pretende participar virtualmente das sessões quando possível. O edifício institucional parece condenado à demolição, mas o gabinete ainda oferece condições de uso.
Questionar instituições, recorrer de sentenças e fiscalizar eleições são direitos democráticos. O problema começa quando a suspeita dispensa demonstração e o resultado aceitável já vem definido pelo interessado. Uma denúncia precisa sobreviver às perguntas; um bordão prefere sobreviver pela repetição. “Descondenado” tem essa vantagem comercial: cabe numa camiseta e poupa o freguês da leitura do processo. Quando a palavra substitui o argumento, basta pronunciá-la para encerrar a conversa. O pensamento bate à porta, mas o slogan já trocou a fechadura.
Volto ao meu amigo e à imprensa que ele convocou para salvar os brasileiros. Jornalismo exige informação verificada para se aproximar da verdade; nenhuma redação dispõe de uma passagem privativa até ela. Também exige perguntar pelo aliado quando o entrevistado só quer falar do adversário. Imagino o trabalho do assessor de Moisés, caso recebesse a pauta de Nantes: teria de abrir o mar para a família passar, fechá-lo sobre os inimigos e depois explicar que a diferença no tratamento era apenas uma questão de correnteza. Quanto ao “roubou, vai pra cadeia”, continuo de acordo com o princípio, respeitados o processo e a prova. Só peço ao meu amigo que conserve esse entusiasmo quando a fotografia de Jair Bolsonaro, o condenado, vier no porta-retratos da própria devoção. Aliás, como mostra a fotografia que acompanha estas linhas, o porta-retratos já comporta um álbum. Resta saber se o rigor do bom-dia vale para a turma toda.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
