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domingo, novembro 8, 2026

Depois das urnas, os boletos

O alerta econômico da Folha e a pesquisa destacada por O Globo se encontram numa cobrança: o país precisa de governo responsável e oposição que aceite a democracia

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Valfrido Silva*

Passado o fervo das eleições, o brasileiro volta à rotina de ir ao supermercado, pagar a prestação e descobrir se o emprego atravessa o próximo ano. Duas notícias deste domingo, lidas juntas, ajudam a recolocar o Brasil nessa rotina que a campanha costuma tratar como cenário. A Folha de S.Paulo aponta o aumento do risco de recessão em 2027. O Globo destaca uma pesquisa Quaest que mostra a rejeição majoritária à saída de Flávio Nantes Bolsonaro do país e à sua reação ao resultado eleitoral. Enquanto o vencedor precisa explicar como pretende governar, o derrotado ainda procura uma maneira de não reconhecer que perdeu. O brasileiro, que não dispõe de mandato nem de refúgio na Flórida, gostaria de saber quando os problemas dele voltarão ao centro da conversa.

A reportagem da Folha reúne projeções de crescimento modesto e alertas sobre a possibilidade de contração da economia. Juros elevados, crédito mais difícil, endividamento e incerteza fiscal compõem uma combinação que merece atenção antes de aparecer na porta da fábrica ou no balcão da loja. Recessão é um risco, não uma sentença anunciada para o ano que vem. Justamente por isso, exige providências enquanto ainda pode ser evitada. O governo não pode esperar a febre subir para discutir se o termômetro pertence à oposição. E o presidente reeleito precisa apresentar uma política econômica capaz de sustentar o que prometeu no palanque. A vitória garante o mandato; não garante crescimento, investimento ou dinheiro suficiente para pagar a conta.

Depois das urnas, os boletos
Flávio Bolsonaro desembarca nos EUA, fugido do Brasil – foto AFP

Do outro lado, Nantes oferece ao debate nacional uma oposição à distância, ocupada em explicar a própria partida e desautorizar o resultado que não lhe serviu. A Quaest encontrou reprovação de 62% à saída para os Estados Unidos e avaliação negativa de 60% sobre seu comportamento depois da derrota. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 30 de outubro e 2 de novembro, com margem de erro de dois pontos percentuais. Esses números medem opiniões; não substituem investigação nem julgamento. Politicamente, porém, cobram seu preço: o candidato que pretendia governar os brasileiros precisa explicar por que escolheu deixar o país quando lhe coube fazer oposição. A faixa presidencial não veio, mas o compromisso com o eleitor deveria ter permanecido na bagagem que ficou.

A própria direita revela uma fissura. Entre os que se identificam com esse campo, mas não se consideram bolsonaristas, as opiniões sobre a partida de Nantes estão praticamente divididas. Isso impede tanto o anúncio precipitado do enterro do bolsonarismo quanto a fantasia de que toda a direita continuará seguindo a família por onde ela resolver passar. Existe espaço para uma oposição que reconheça a eleição e cobre duramente o governo. Aliás, o alerta econômico oferece trabalho suficiente: examinar gastos, discutir prioridades, fiscalizar promessas e apresentar alternativas. É uma agenda mais útil ao país do que procurar, depois da apuração, um resultado eleitoral que agrade ao freguês.

Para Lula, a fragilidade do adversário pode ser uma tentação. Um oposicionista que se desgasta sozinho facilita a vida política do governo. Mas não paga juros, não melhora a produtividade e não transforma anúncio em renda. O presidente não poderá comparecer diante de uma economia enfraquecida e oferecer como compensação o comportamento deplorável de Nantes. O eleitor pode rejeitar a aventura do derrotado e, na mesma manhã, cobrar o vencedor pelo preço da comida e pela dificuldade de conseguir trabalho. Defender a democracia não exige conceder indulgência administrativa a quem venceu democraticamente. Exige cobrar mais de quem recebeu a responsabilidade de governar.

Também não basta pronunciar “ajuste fiscal” como quem encontrou uma palavra mágica. O governo precisa dizer quais despesas pretende rever, quais prioridades vai preservar e como distribuirá o esforço. Quem já chega ao fim do mês contando moedas não pode ser escolhido, por comodidade, para resolver sozinho o desequilíbrio das contas públicas. Responsabilidade fiscal precisa produzir condições para uma economia que funcione; justiça social precisa de financiamento que se sustente. Sem essa conversa adulta, o país continuará alternando a promessa de que tudo cabe no orçamento com a descoberta, depois da festa, de que alguém deixou a conta sobre a mesa.

As duas notícias se completam nesse ponto. O Brasil precisa preservar a legitimidade da eleição e enfrentar os riscos que ameaçam a vida depois dela. A economia não deve servir de pretexto para aventuras contra a democracia; a defesa da democracia não pode virar desculpa para ignorar a economia. Lula tem um governo a organizar. A oposição tem um papel a cumprir. E o eleitor tem todo o direito de cobrar os dois, cada qual por sua responsabilidade, sem ser convocado novamente para uma campanha que já terminou. A urna encerrou a disputa. O boleto, esse insubordinado, continua vencendo. E chegando todo fim de mês.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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