01/04/2012 – 09:04
A propósito não apenas de mais um aniversário da “redentora Revolução” de primeiro de Abril de 1964 (que para não parecer de mentira é sempre lembrada em 31 de Março), mas do inferno astral em que caiu o senador democrata Demóstenes Torres e das investigações oficialmente só agora abertas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA para julgar e punir o Brasil pela morte do jornalista Vladimir Herzog (foto) no DOI-CODI em São Paulo, uma reflexão sobre duas situações de verdade que, uma vez consumadas, poderiam ter mudado o curso da história do Mato Grosso do Sul.
Em 11 de outubro de 1977, logo após a solenidade de criação do Mato Grosso do Sul no Palácio do Planalto, cruzando com Antônio Tonanni nos corredores do Congresso Nacional, e ele sempre muito bem informado dizendo estar sentindo o cheiro de conspiração no ar. Que nada, era dia de festa, e para os a partir dali orgulhosos sul-mato-grossenses zanzando pela capital da República a única conspiração em marcha era a do senador Mendes Canale para impedir a nomeação de Pedro Pedrossian como primeiro governador do novo Estado e reeleger seu colega de bancada Rachid Saldanha Dérzi como senador biônico, intentos que o “italiano” senador de cabelos azulados alcançaria no correr daqueles dois primeiros anos.
De volta ao aí Mato Grosso do Sul, na noite daquele mesmo dia, passada a ressaca da festa que começou no histórico retorno do “voo da divisão”, em 12 de outubro a manchete da criação do mais novo Estado brasileiro era ofuscada pela tentativa de golpe de Estado do Ministro do Exército, general Silvio Frota, fazendo jus ao feeling sempre aguçado de Tonanni. A razão da tentativa de golpe de Frota era a demissão pelo presidente Ernesto Geisel do comandante do segundo Exército, general Ednardo D’Ávila Melo, exatamente por causa da morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura. Como escrevi em meu livro “Sonhos e Pesadelos”, se Frota tivesse derrubado Geisel, babau Mato Grosso do Sul.
Quando Ramez Tebet assumiu a presidência do Congresso Nacional, por ter feito, quando ele era governador, a ponte que possibilitou a primeira eleição de José Elias Moreira deputado federal, fui sondado por concorrentes de Carlinhos Cachoeira para interceder junto ao senador para que abraçasse esta mesma causa que hoje pode custar o mandato do combativo Demóstenes Torres. Como os fatos atropelariam a história, Ramez Tebet, político daqueles que nascem com o fiofó virado pra Lua, nem chegou a ser consultado – ou tentado! – sobre a proposta do indecoroso lobby, encerrando com chave-de-ouro uma trajetória em que a habilidade política e o fator sorte contaram muito mais que a eloquência do discurso moldado, tal qual o de Demóstenes, nos tempos em que foi promotor público, mais precisamente, no início dos ditos anos de chumbo da ditadura implantada exatos 48 anos atrás.
