17/09/2013 – 15h02
Na semana passada, George Stephanopoulos, da rede de TV norte-americana ABC, recebeu o telefonema de que praticamente todo jornalista gostaria. Venha para a Síria, ele ouviu do outro lado da linha, pois o presidente Bashar Assad vai falar com você sobre a guerra civil e as ameaças do Ocidente em realizar um ataque contra o país.
O governo sírio queria que um programa matinal norte-americano televisionasse uma entrevista com Assad na quarta-feira passada para refutar o pronunciamento à nação realizado na noite de terça-feira (10) pelo presidente Barack Obama, de acordo com membros da equipe da ABC. A entrevista anterior de Assad, concedida a Charlie Rose, das redes CBS e PBS, havia atraído atenção internacional. Por isso, Stephanopoulos voou em segredo para Beirute, assim como Rose havia feito antes que a equipe da CBS tivesse atravessado a fronteira rumo a Damasco, na Síria.
Mas Assad deve ter mudado de ideia sobre a entrevista, pois assim que Stephanopoulos chegou a Beirute, o encontro foi cancelado. Stephanopoulos retornou aos Estados Unidos com as mãos vazias. (Mas, olhando pelo lado positivo, ele conseguiu agendar outra grande entrevista rapidamente, e desta vez ela saiu: Stephanopoulos conversou com Obama em Washington na semana passada).
A viagem de 17 mil km de Stephanopoulos até Damasco demonstrou a estratégia usada pelo governo sírio – que às vezes é eficaz e às vezes é confusa – para se comunicar com o Ocidente por meio dos principais meios de comunicação. Segundo relatos, o círculo de conselheiros de comunicação de Assad inclui duas mulheres: Bouthaina Shaaban, intérprete que estudou no Ocidente e autora que tem aparecido ocasionalmente na TV para defender o governo sírio, e Luna Chebel, ex-âncora da rede Al-Jazeera, que organizou a entrevista com Charlie Rose no início da semana passada.
David Rhodes, presidente da CBS News, disse que a equipe de comunicação de Assad é pequena, leal e, geralmente, eficaz.
“Não é que eles tenham contratado Howard Rubenstein”, disse ele com uma risada, invocando o nome do famoso relações públicas. (O registro das empresas norte-americanas que fazem negócios com governos estrangeiros mostra que, atualmente, não há nenhum laço de relações públicas ou de empresas de lobby com o governo sírio).
Shaaban tem se mantido praticamente inacessível aos repórteres ocidentais desde o início do levante sírio, no início de 2011 – “nenhum contato” é como Jon Snow, veterano âncora do Channel 4 News, da Grã-Bretanha, descreveu, muito para seu desgosto, as atuais relações com o governo sírio. Mas isso mudou logo após relatos sobre um massacre de civis nos arredores de Damasco, ocorrido em 21 de agosto passado. Shaaban surpreendeu Snow ao conceder a ele uma entrevista transmitida ao vivo no último dia 4 de setembro.
Richard Roth, ex-correspondente da CBS News, disse a respeito de Shaaban: “Eu não sei se ela chegou a apresentar argumentos convincentes para justificar as políticas de Assad durante qualquer transmissão minha, mas ela domina a TV muito bem: é articulada, indomável, tem um tom oficial e – o mais importante – fala inglês com fluência”.
Shaaban, que tem pós-dourado em literatura inglesa pela Universidade de Warwick, na Grã-Bretanha, é frequentemente descrita como porta-voz do governo sírio, e apresentou-se aos jornalistas como, nas palavras de Roth, “alguém que poderia mover os pauzinhos na Síria”.
Ela atuou como uma das conexões para as entrevistas que Rose fez com Assad em 2006 e 2010. Mas quando Rose retornou a Damasco para a entrevista da semana passada, Shaaban não estava presente, de acordo com Jeff Fager, presidente da CBS News, que acompanhou Rose durante a viagem. Desta vez, foi Chebel que havia organizado o encontro com Assad.
Nas últimas semanas, Assad também falou com os repórteres de jornais da França e da Rússia, o que lhe permitiu influenciar a opinião pública desses dois países. Mas foi a entrevista com Rose, televisionada pela CBS e pela PBS, que ganhou mais crédito em toda a mídia internacional. O governo sírio calculou corretamente que uma conversa com um entrevistador como Rose seria percebida como crível e receberia atenção universal no exterior.
Fager disse que saiu com a impressão de que Chebel “é uma jogadora séria”, que fala com Assad várias vezes ao dia. Rose nunca tinha se encontrado com ela antes da entrevista deste mês.
Era importante para Chebel e para outros assessores de Assad que a entrevista fosse televisionada na íntegra por algum canal em algum momento. E ela foi – pela PBS – depois de trechos do encontro terem sido exibidos no programa “CBS This Morning”, noticiário que vai ao ar durante a semana e no qual Rose é um dos apresentadores.
Na semana passada, Shaaban e Chebel não responderam a repetidos pedidos de entrevista.
Rose também pode ter tido uma vantagem sobre os outros entrevistadores devido ao fato de seu programa na PBS, o “Charlie Rose”, ser visto em todo o Oriente Médio e em outros países por meio de um acordo de distribuição com o canal de TV a cabo Bloomberg.
“Isso nos ajuda a fazer entrevistas sem edição prévia e também promove ainda mais nossa reputação de duros, justos, curiosos e bem-informados”, disse Rose.
Brian Stedler/The New York Times

