03/01/2021 – 13h50
Prefeito prometeu responder a entrevista por e-mail, aproveitando o período de isolamento, já se recuperando da Covid, dias antes da posse
Por esperar que o Alan Guedes prefeito fosse o mesmo Alan Guedes candidato, com suas críticas contundentes ao governo do estado e à prefeita que pretendia substituir, o que o presidente Bolsonaro chamaria de “velha política”, entendi que ele tiraria de letra as perguntas de certa forma até singelas a ele endereçadas, depois de prévio acordo via WhatsApp. Foram dois ou três pedidos de desculpas, com a promessa de “estar finalizando”. Veio a diplomação, a apresentação do relatório da transição, onde, pessoalmente, pediu mais um dia, e daí a posse. E nada, nem desculpas mais.
Pelo óbvio da coisa, como estava realmente assoberbado, como ele mesmo justificou, com uma “demanda reprimida’, nada que um bom ghost writer não pudesse resolver. A menos que toda a embromação tenha sido coisa exatamente deste profissional, normalmente contratado para resolver esse tipo de situação, não para complicar mais. Não surtiu efeito nem mesmo o truque usado na abertura das perguntas, com o entrevistador pedindo licença para chamar o jovem de prefeito por “você”, por se tratar do jornalista mais antigo do estado no pleno exercício profissional. Quer dizer, às favas essas velharias do jornalismo.
Pois bem. Inspirado em grandes profissionais, como Elio Gaspari, que entrevista até desencarnados, vamos tentar mostrar ao leitor – e principalmente ao eleitor – as respostas que o blog esperava arrancar do novo prefeito douradense.
Você venceu nas urnas, numa tacada só, as maiores lideranças políticas da cidade e do Estado; como juntar os cacos agora, para que Dourados não sofra retaliações, principalmente do governo do Estado?
Perdeu a oportunidade para começar tirarando de letra! Como a pergunta não era olho no olho, fiz a observação para que ele falasse da eventualidade de Murilo Zauith virar governador, como se comenta nos bastidores, por conta da situação jurídica tida como difícil de Reinaldo Azambuja.
Mas o vice-governador foi “acusado” de apoiá-lo por debaixo dos panos, o que gerou uma crise que deve custar-lhe o cargo na Seinfra…
Sendo o censor ser quem estou pensando, seria a hora de uma espinafrada no blogueiro: mas quem falou isso foi teu blog, Murilo continua firme e forte no governo…
Confirmando-se a saída de Murilo da Seinfra (e desde que não vire governador, claro) acha que pode haver solução de continuidade no cronograma de obras do governo do Estado, que, aliás, vem patinando com Délia Razuk?
Não deve ter sido esta pergunta que motivou a censura. Óbvia demais, como diria Antônio Tonanni.
Como o jovem prefeito Alan Guedes vai lidar com as velhas raposas políticas que sempre mandaram na política local?
Talvez esta pudesse embaraçá-lo, ainda mais agora, depois da escolha do secretariado, quando já começam a aparecer as digitais de possíveis patrocinadores de sua campanha.
O deputado Zé Teixeira, de quem você foi seguidor, tem a secretaria municipal de obras como um feudo dele, isso vai mudar?
Esta era para matar a pau, desde que Alan Guedes fosse coerente com o discurso de campanha, já para começar a construir a longa estrada que todo líder regional precisa percorrer.
Além dessa situação, a mesma secretaria de Obras abriga, ainda, remanescentes da Uragano, com os quais os sucessores de Ari Artuzi não conseguiram mexer…
Pelo quê e por quem vi saracoteando na apresentação do relatório da transição, nenhuma dúvida de que esta pergunta foi o que gerou a censura.
Falando em raposa, você teve o apoio do ex-secretário de governo de Murilo Zauith, José Jorge Leite Filho, o Zito, ele volta para a prefeitura?
Outra saia justa, mas o prefeito poderia muito bem ter dito que nada consta contra Zito, que ele não seria secretário, mas que, exatamente por suas qualidades como articulador já está atuando nos bastidores, fazendo a ponte entre a nova câmara e a nova administração.
A propósito, ainda, não tanto como o deputado Barbosinha, mas você também tem alguns ditos oragânicos entre seus apoiadores, esse pessoal vai ter vez e voz em sua administração?
Esta, juro que gostaria de estar fazendo a entrevista ao vivo, olho no olho, certamente para poder contrapor com alguma coisa do tipo: mas tem fulano e beltrano no secretariado para cumprir missão da chefia. Observe-se que se Alan tivesse respondido as perguntas, no prazo combinado, teria sido salvo pela temporalidade, em casos como este.
Prefeito, a corrupção está arraigada no serviço público, e Dourados tem dado tristes e vergonhosos exemplos disso. Acha, sinceramente, para ser coerente com seu discurso de campanha, possível pelo menos estancar esse estado de coisas?
Como vereador de dois mandatos e presidente da Câmara sem nunca receber a visita do pessoal do Gaeco ou da Polícia Federal, poderia citar o seu próprio exemplo. Perdeu a chance.
A prefeita Délia Razuk disse antes da eleição que preferia tê-lo como sucessor. Algum compromisso político com ela?
Parece que esta pergunta está respondida com a indicação do novo secretário de Saúde, que foi secretário por um dia, mas foi, de Délia Razuk. Aliás, a declaração de Délia que causou tanta polêmica foi motivada pela escolha do vice de Alan Guedes, Guto Moreira, filho de uma das mais aguerridas colaboras da ex-prefeita, Elaine Azambuja.
Como vai agir diante de uma herança que parece tão difícil de ser administrada?
Esta ele respondeu no discurso após a apresentação do relatório de transição, garantindo que não vai fazer auditoria e, depois, durante a posse, ao falar que não quer saber de mazelas, de remexer no passado, deixando claro que se depender dele a ex-prefeita terá todo tempo do mundo para cuidar do marido adoentado ou para viajar tranquila para Telavive, onde mora a filha.
A cidade está em frangalhos, a saúde é um caso de calamidade pública, as ruas e avenidas praticamente intransitáveis, a folha de pagamentos comprometendo o orçamento, por onde começar?
Esta foi bem respondida, também no discurso de posse, ao dizer que os problemas herdados agora são dele e que vai cumprir seu papel conforme manda o figurino.
Embora com bom trânsito na Câmara, seu partido elegeu apenas uma vereadora, Lia Nogueira, isso vai dificultar a governabilidade?
Aqui seria o caso de fazer outro desagravo ao tão criticado Zito, dizendo que o guru de Londres Machado e de Murilo Zauith já resolveu esta questão, citando o exemplo da composição que elegeu Laudir Munaretto, embora Zito tenha tentado retirar da chapa de consenso a própria Lia e também Cemar Arnal.
Uma das grandes travas de todo prefeito é o toma lá, dá cá com os vereadores. O vereador reeleito Olavo Sul, inclusive, já está defendendo uma “parceria” com sua administração. Isso não é um despropósito, pelo óbvio da coisa?
Mais uma chance de defender seu legado, embora alguns colegas sob sua presidência tenham ido parar no xilindró.
Pra encerrar, prefeito, o que considera o seu maior desafio?
Aqui ele mostrou porque foi eleito prefeito. Craque, romântico e poético! A pérola saiu no discurso de posse, de improviso: “Eu te amo Dourados e vou cuidar de você”. E, se o Alan prefeito continuasse com o discurso de candidato era só acrescentar uma última espinafrada: “porque amor não se mostra construindo murunduns com coraçõezinhos, com dinheiro que poderia muito bem ser utilizado para comprar máscaras, no mínimo, e outros equipamentos para ajudar no combate à Covid”.

