14/01/2021 – 09h10
Prefeito joga duro ao mexer no formigueiro dos comissionados, demitindo até figurões da política
Quando assumiu a prefeitura, em 1977, sucedendo a João Totó Câmara, o prefeito José Elias Moreira pediu uma relação dos funcionários adversários, para se resguardar. Não era sua intenção perseguir por perseguir, pôr pais de famílias no olho da rua. Um dos “totosistas” mais notórios, Rubens Azambuja, com cargo de confiança na Tesouraria (à época não existia secretaria de Fazenda), foi chamado ao gabinete do prefeito, que estava interessado em saber sua especialidade. Informado de que o cupincha de Totó era contador, Zé Elias disse que estava precisando de um bom contador de parafusos na oficina da prefeitura e para lá mandou o adversário.
Braz Melo, ao assumir pela primeira vez a prefeitura, em 1989, ganhou espaço nacional na rede Globo ao demitir numa única canetada cerca de mil funcionários tidos como fantasmas, herdados da administração Luiz Antônio. Pior, mandou reunir um grupo numa minúscula sala da PGM para que a equipe de jornalismo da TV Morena pudesse filmar os “fantasmas” e mostrar para o Brasil inteiro o grande feito do mineirinho de Aimorés que pretendia fazer história na terra de seu Marcelino. Tudo, coisa da cabeça de seu secretário de administração, Harrison de Figueiredo, maquiavelista de carteirinha.
Agora, de um total de 653 comissionados deixados por Délia Razuk em seus cargos, o prefeito Alan Guedes demitiu 419, também de uma canetada só, não “fantasmas”, mas com algumas funções pelo menos questionáveis nesses tempos bicudos. E, pasme, entre os defenestrados, o nome que mais chama a atenção é o do mesmo José Elias Moreira. Braz Melo dançou por tabela. Como era vereador quando Délia Razuk resolver fazer graça com a família Genelhu, em seu lugar aparece na lista de Guedes a poderosa então primeira dama Anete Silva Melo, numa das sinecuras mais cobiçadas do gabinete do prefeito. Nem a pobrezinha da neta de Braz e Anete, Maria Fernanda Silva Melo Dourado, foi poupada.
A tesoura de Alan Guedes cortou feito lima nova. Outro nome famoso, Roberto Djalma Barros, ex-vereador e ex-deputado, assim como Maria Tereza Cerveira, filha do ex-prefeito José Cerveira, ela assessora da secretaria da Saúde, ele gerenciando o sempre tão detonado PAM. Até aí Alan se garante. Braz Melo, sob as asas de Murilo Zauith, estava cuidando de projetos como o da duplicação da rua Coronel Ponciano; Zé Elias, que até recebeu a visita do prefeito logo após a eleição, juntamente com o vice-prefeito e sobrinho Guto Moreira, deve continuar cuidando das obras de reforma do aeroporto. Nada que um contratinho de consultoria não resolva.
Mas a porca começa a torcer o rabo quando Alan Guedes não poupa nem mesmo o irmão de um vereador. Sim, o cara parece que veio, mesmo, para fazer história. Neste caso, pior que ter que mostrar toda sua habilidade para manter na base aliada o vereador Maurício Lemes Soares, pela demissão de seu irmão Márcio Roberto Delarissa Soares da secretaria de Serviços Urbanos, onde era o encarregado da conservação da iluminação pública, será aguentar a língua afiadíssima do sempre bem informado pai dos guris, o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Archimedes Ferrinho Lemes Soares. As rodas de conversas das padarias vão ferver.
“Temos um compromisso de enxugar a máquina e fazer economia nesse momento”. Palavras do prefeito Alan Guedes no Diário MS, jornal de seu chefe de gabinete Alfredo Barbara Neto. Quer dizer, a coisa é séria, não tem volta, embora Alan Guedes esteja careca de saber que, em termos de caixa, não é este o seu calcanhar de Aquiles, mas nem isso lhe dá o direito de, daqui uns dias, começar a recontratar, que seja, os apaniguados dos vereadores. Se fizer isso cai na vala comum onde se enterram os demagógicos da política. Vai ficar parecendo que precisava apenas de alguma medida de impacto para ganhar tempo enquanto não achava o fio da meada da massaroca deixada por Délia Razuk. Só não precisava ser tão impactante, pondo pra correr uma figura emblemática e folclórica do jornalismo douradense como Waldemar Gonçalves, o Russo, que, desolado, sem padrinho político, diz não ter outra saída: vai tentar usar a grana de seus direitos trabalhistas na aquisição de um carrinho para vender picolé na rua.

