24/05/2021 – 06h02
Farra da publicidade foi denunciada na tribuna da câmara, pela vereadora Lia Nogueira, aliada partidária do prefeito Alan Guedes
Durante um seminário jornalístico promovido pelo portal Perfil News, em Três Lagoas, tempos atrás, conversando com o jornalista Jorge Kajuru a respeito dos escândalos da Operação Uragano, em Dourados, de repercussão na mídia nacional, ele me deu um grande alento, quando falei que estava chegando aos trinta processos, todos movidos por políticos corruptos. “Fala comigo depois dos cem”, brincou o hoje senador, dizendo que já havia ultrapassado esta marca e, mais importante, ganhando todas, na justiça de Goiás.
Não ganhei todas, obviamente, pela simples razão de que não sou um insubordinado apenas na hora de escrever sobre escândalos em administrações corruptas, mas também porque não sigo as orientações de meus advogados, deixando às vezes a indignação falar mais alto, extrapolando o bom-senso. Tanto que nos tempos uragânicos fui acusado pelo então presidente do Sindicato dos Jornalistas da Grande Dourados, Luiz Carlos Luciano, de ter “surtado”. Diria até, melhor pagar uma multinha, converter uma pena mais pesada em prestação de serviços à comunidade do que se calar diante de tanta bandalheira como agora acontece, infelizmente, nem bem iniciada a administração Alan Guedes-Alfredo Barbara. Sei que a verdade dói, incomoda, mas, para mim, isso é missão de vida.
Que os advogados do alcaide e de seu preposto anotem aí o que vou dizer em minha defesa ao dr. delegado quando inquirido a respeito do que Alan Guedes diz ser uma “fantasia desvairada” minha acusação de que ele está imitando os bolsonaros com as rachadinhas, ao destinar o grosso do orçamento da comunicação da câmara ao seu hoje chefe de gabinete: pior que “fantasia desvairada” é o assalto desvairado aos cofres públicos. Estamos todos, os insubordinados, apenas tentando estancar uma sangria, depois que Alfredo Barbara se tornou plenipotenciário de um orçamento bem mais apetitoso. Se a gente não “surta”, como disse Luiz Carlos Luciano, a farra continua na prefeitura. Aliás, já começou. Embora tentem escamotear – transparência é uma coisa que Alan Guedes parece nunca ter ouvido falar! – a coisa está correndo frouxa e documentos abundam o suficiente para aumentar o cocuruto de Alan Guedes. Daí a tentativa desesperada de calar jornalistas, os sem aspas. Para que não escrevam, por exemplo, a respeito de consórcio para distribuição de polpudas verbas a veículos “fantasmas” ou ressuscitados, numa fortíssima evidência de que se trata de ajutório a quem não pode receber oficialmente.
Tão grande é o esquema que o prefeito precisou recorrer ao velho cacique Londres Machado, patrono do “Diário” MS, para a liberação de um funcionário do governo estadual especialista em fazer “três cantos” na intrincada mídia, para ficar à disposição de Barbara. Até porque, trata-se de um caminho tortuoso, com a proposta de empenho precisando ser recusada, só depois a grana garantida, caracterizando-se aí a tal da rachadinha ou, pior, os famigerados retornos dos tempos Owari/Uragano. Em outros casos, uma engenharia mais complicada ainda, como a da tão decantada ferrovia, ligando o Paraná, só que neste caso a capital, Curitiba, passando por Dourados, até Maracaju. Passarinho que bisbilhota pela antessala do prefeito fala até em favorecimento familiar. E não apenas a “papis”.
Se o prefeito Alan Guedes e seu preposto e guru Alfredo Barbara acham que delegado de polícia nos mete medo estão redondamente enganados. Pelo jeito eles é que estão com os fundilhos borrados, pois nada explica um prefeito, em plena pandemia, com vítimas da Covid morrendo pelos corredores dos hospitais públicos e conveniados, ter tempo para ir até à polícia, dizendo-se ofendido em sua honra. Ora, ofendidos estamos todos nós, trabalhadores do jornalismo, e os contribuintes em geral, depois das denúncias da vereadora Lia Nogueira, quando finalmente veio à público a farra da propaganda patrocinada por Alan Guedes durante sua gestão na câmara municipal. E ainda têm a cara de pau de dizerem que está tudo dentro da lei. Se está tudo nos conformes, por que tanto esforço para esconder a mamata esse tempo todo e, agora, apelando à polícia para censurar a imprensa?
Que venham, pois, os processos. Temos a jurisprudência uragânica a nosso favor e toda uma população frustrada com um escândalo que se não for estancado a tempo pode levar mais uma vez toda uma nova geração política à bancarrota, como aconteceu com Ari Valdecir Artuzi & Cia. Que a câmara municipal se posicione, que deixe de lado esse nhenhenhém de ajudar essa tal governabilidade, até porque isso é uma coisa que, faz tempo, Dourados não sabe o que é; que não caia na tentação do mensalinho e que cumpra o seu papel primordial, que é o de fiscalizar o executivo, não de se banquetear com o dinheiro fácil da corrupção. Até porque os tempos são de pandemia e, assim como os hospitais, a PED (Penitenciária Estadual de Dourados) não suporta mais tanta lotação.

