Uma declaração do Reverendo André Mendonça, provavelmente para reforçar a tese da força do segmento evangélico no cenário nacional, pode ter sido celebrada por muitos, adeptos do conceito ufanista do movimento, amparado numa frase aparentemente espiritual, mas vinculada a estatística, de que “o Brasil é do Senhor Jesus”. Ele teria dito que em dez anos o Brasil terá maioria evangélica.
Como o termo evangélico, hoje, agrega todos os movimentos, que “usam o nome de Jesus”, e que expressam a fé em práticas as mais estranhas, bisonhas e reprováveis, do ponto de vista da própria Bíblia, que representa a base da fé cristã, a declaração é pertinente. É comum, entre os que desconhecem o universo complexo da religiosidade evangélica, inserir todos os movimentos, que usam a Bíblia, e que não sejam católicos, como sendo evangélicos.
Se mudarmos o termo, de evangélico para protestante, contudo, buscando ouvir os teólogos do movimento que irrompeu no século XVI, a partir de Martinho Lutero, cindindo o cristianismo histórico em dois ramos, muitas denominações conceituadas como cristãs, são na verdade heresias. Usando outro termo, são seitas. E entram nas estatísticas, inclusive do IBGE, como sendo evangélicas.
Para evitar controvérsias, por um lado, e aguçar a curiosidade, por outro, não vou nominar algumas das centenas de ramificações, que usando de práticas pra lá de absurdas, muitas amparadas pela teologia da prosperidade – um câncer – são estranhamente toleradas nessas práticas por muitos “herdeiros da reforma”, por absoluta conveniência, especialmente política.
O triste é que muitos dos que fecham os olhos para a mistura entre cristianismo autêntico e heresias, para acomodar interesses, cresceram em Igrejas locais, de denominações históricas e sérias, ouvindo críticas pela leitura que esses movimentos, que entram na estatística de Mendonça, fazem da vida no aqui e no agora e no porvir, usando textos fora de contexto ou com interpretações que não levam em conta o todo das Escrituras.
Alguém disse que “a Bíblia é a mãe de todas as heresias”. Sendo, segundo ela, o coração humano desesperadamente corrupto, muitos tendem a usar o nome de Deus, Trino ou não, muitas vezes, para referendar aquilo que defendem como verdade ou interesses pessoais ou corporativos. Como não nos cabe julgamentos sem fundamentos, a própria Bíblia evidencia a falta de coerência de muita coisa que se vê, acontecendo, “em nome de Jesus”, por movimentos conceituados como evangélicos.
Se o fundamento, então, é a verdade defendida a séculos por líderes de Igrejas reformadas, ou protestantes, que flui da interpretação correta das Escrituras, levando-se em conta expressões, contexto e outras ferramentas, a afirmação de André só tem sentido dentro da interpretação equivocada que se faz do termo.
Diante da afirmação “o Brasil será um país evangélico” temos, inevitavelmente, que perguntar: de que evangelho. O apóstolo Paulo já em seu tempo dizia que muitos estavam pregando “outro evangelho”. Talvez por isto muitos líderes sérios, chocados com o que se vê, tem falado na necessidade de uma reforma no seio da religiosidade que usa a Bíblia e nome de Deus em vão. Aliás, a história é pródiga em mostrar que este padrão esteve presente em muitos de seus capítulos.
Longe de ser motivo para celebração, ter uma maioria evangélica no Brasil, forjada neste cenário, será algo tão danoso como o desejo crescente que tenhamos cada vez mais “evangélicos” na política e até um presidente com este rótulo, como querem muitos. O engajamento de muitos, nos últimos tempos, não tem trazido resultados animadores quando se pensa a vida e o mundo sob a ótica do Reino de Deus. E, afinal, se Deus é soberano, é livre para interferir em qualquer escolha, do jeito dEle, independentemente dos enquadramentos que dEle queremos fazer.
Em tempo: o texto acima não tem relação com ser ou não favorável ao Dr. André compor o STF. Independente do momento político, contudo, alguns meios desta condução devem ser questionados, especialmente a força política das escolhas. Por mais íntegros que os indicados sejam, em algum momento o critério da neutralidade será comprometido.
Vivaldo da Silva Melo – jornalista douradense e pastor presbiteriano em Castanheira, MT
