Assessores e aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL) têm acompanhado com lupa as agendas de campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em busca de declarações que possam virar munição na guerra das redes sociais. Deslizes do petista, como o relato sobre sua intervenção a favor de sequestradores na década de 1990, logo vão parar na timeline de bolsonaristas. Do outro lado, petistas também passaram a esquadrinhar falas de Bolsonaro para diferenciar e enaltecer a postura de Lula durante seus dois mandatos na Presidência.
A estratégia das duas campanhas tem sido a de apostar no embate na arena virtual para manter as bases mobilizadas e, ao mesmo tempo, tentar aumentar a rejeição ao adversário.
Mais organizada que o PT, a rede bolsonarista foca, principalmente, em declarações de Lula sobre temas que são bandeira do atual governo. Foi o que aconteceu no mês passado, em Maceió, quando o ex-presidente relatou o episódio envolvendo condenados.
Na ocasião, o petista disse ter pedido ao então presidente Fernando Henrique Cardoso a libertação dos sequestradores do empresário Abílio Diniz, em 1998. Após o pedido, os criminosos foram extraditados.
Responsável pelas redes do pai, o vereador Carlos Bolsonaro publicou o vídeo da participação de Lula no evento: “Lula, o defensor de sequestradores e ladrões de celulares, da legalização das drogas, do MST…”.
Ontem, Lula foi às redes sociais para dizer que irá “viajar pelo país, não para fazer motociata, mas para conversar com o povo, dizer ‘levanta a cabeça que tem jeito, vamos consertar o país’”.
Ao citar os comportamentos de Bolsonaro, o petista costuma destacar o que irá fazer caso volte ao poder.
Em maio, bolsonaristas decidiram pinçar outra polêmica quando Lula, em uma palestra na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, disse que resolveria a guerra da Ucrânia “em uma mesa tomando cerveja”. No mesmo mês, o petista teve de se desculpar após dizer que “Bolsonaro não gosta de gente, gosta de policial”. A fala também foi explorada.
O núcleo da campanha de Bolsonaro tem feito pesquisas internas que indicam que eleitores lulistas tendem a mudar de posição ao serem confrontadas com declarações consideradas polêmicas, como a que o ex-presidente disse que “todo mundo deveria ter direito ao aborto”, em abril.
Aliados e integrantes do governo negam que aja uma ação orquestrada e alegam que Carlos Bolsonaro apenas “capta” o que a militância mesmo aponta.
“Memória positiva”
A mesma estratégia tem sido adotada pela campanha petista. Segundo um integrante da equipe de Lula, a tendência é que o ex-presidente e o PT apontem cada vez mais os pontos fracos e os tropeços de Bolsonaro. A ideia, porém, não é apenas reproduzir os vídeos com legendas críticas, como fazem na maioria das vezes os bolsonaristas, mas usar os deslizes para explorar comparações entre os dois pré-candidatos.
Esse formato, segundo petistas, está apoiado em pesquisas qualitativas e quantitativas que demonstram uma “memória positiva” da população em relação ao governo do petista. Temas como inflação, emprego, fome e combustíveis têm sido exemplos de assuntos explorados pelo time de Lula para relembrar os índices de quando o PT ocupava o Palácio do Planalto.
Além disso, a campanha petista também tem buscado associar a Bolsonaro a imagem de alguém que pouco faz pelo país, numa forma de desconstruir a sua imagem.
— O orçamento secreto é a maior bandidagem já feita em 200 anos. Vamos ter que discutir (isso) com o Congresso. Quem administra o orçamento é o governo. O Congresso legisla e o Judiciário julga. Uma das nossas tarefas, minha e do Alckmin, é a de colocar ordem na casa — disse Lula no sábado.
Alguns petistas próximos a Lula entendem, por outro lado, que essa conduta não é uma estratégia fixa ou definida para se chegar à vitória nas urnas. Seria o desdobramento de um pensamento lógico, ou o “feeling” político do ex-presidente. O vice-presidente do PT, José Guimarães, por exemplo, diz que os rumos da campanha e as diretrizes da comunicação ainda serão definidas mais à frente. (Jussara Soares e Bruno Góes/O Globo).
