A pesquisa trimestral “Painel do Poder”, feita esta semana junto aos 70 principais líderes da Câmara dos Deputados e do Senado pelo site “Congresso em Foco”, chegou a conclusões estarrecedoras que explicam o rolo compressor aplicado há um mês pelo presidente Bolsonaro, com o apoio direto do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para mudar o panorama eleitoral, até aqui pendendo para uma vitória do ex-presidente Lula no 1º turno, em 2 de outubro.
Mediante uma série de canetadas bilionárias, que valem até 31 de dezembro de 2022, comprovando seu nítido caráter eleitoreiro, o governo reduziu impostos de energia elétrica, telecomunicações e combustíveis e ainda fará farta distribuição de dinheiro, tudo para seduzir o eleitor a mudar de lado. Para conseguir mudar o clima das eleições em urnas eletrônicas (que tanto tenta desmoralizar), a menos de 95 dias da eleição, Bolsonaro não se limitou a rasgar a Constituição, aprovando com ampla maioria no Congresso a decretação do Estado de Emergência (alegando a alta dos combustíveis, que começou em março) que lhe permite, com o aval do Legislativo, driblar a lei eleitoral que proíbe distribuição de benefícios para o eleitor e redução de impostos no ano eleitoral, contornou a Lei de Responsabilidade Fiscal e a regra de ouro, que limitava os gastos correntes dos entes públicos, furou duas ou três vezes o teto dos gastos, que ficou maior que a base original.
Dois sentimentos que rondam nos últimos dias as impressões dos brasileiros já parecem ser certezas para a maioria dos deputados e senadores: o presidente Jair Bolsonaro contestará as eleições deste ano e, ao fazer isso, criará um ambiente político conturbado com consequências imprevisíveis.
De acordo com a pesquisa, assim como a maioria dos deputados presentes à estranha sessão comandada por Arthur Lira, em que se podia votar pelo celular, para evitar a pressão do corpo-a-corpo no Plenário, deu 361 dos 403 votos para o governo (142 deputados votaram contra o estupro da Constituição), nada menos que 54,69% dos líderes dos 23 partidos acham altamente provável que Bolsonaro tentará replicar no Brasil o que fez Donald Trump nos Estados Unidos quando questionou o resultado da derrota que sofreu para Joe Biden em 2020.
É preocupante a consciência demonstrada pela maioria dos líderes dos principais partidos da Câmara dos Deputados, de que o presidente Bolsonaro pode não se contentar com as violações em curso para tentar ganhar as eleições corrompendo os eleitores. A campanha eleitoral no rádio e TV começa dia 16 de agosto e os bilhões de reais começarão a pingar no bolso dos eleitores nas cidades, nos campos e nas estradas (caso dos caminhoneiros) já em agosto. Mesmo assim, a maioria das lideranças acredita que se o Plano A falhar, Bolsonaro poderá pôr em prática o Plano B antes mesmo das urnas serem acionadas. O ensaio do golpe foi feito em 7 de setembro do ano passado. De lá para cá a retórica de suspeitas contra o voto eletrônico avançou nas Forças Armadas, sob a liderança do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira. Milhares de cidadãos tiveram mais acesso a armas (Colecionadores, Atiradores e Caçadores, os CACs, milicianos e as tropas de polícias civil e militar. As armas estão engatilhadas, como ficou claro no episódio de intolerância política que causou uma vítima do PT em Foz do Iguaçu (PR).
GILBERTO MENEZES CÔRTES – Jornal do Brasil
