Em dia de chuva, melhor estar protegida dentro de algum lugar. Decidi rever o pavilhão do Concurso Lépine deste ano, antes de ele fechar as portas na segunda-feira. Ele acontece dentro da Foire de Paris — a Feira de Paris —, evento tradicional realizado todos os anos.
O concurso, por sua vez, reuniu 125 participantes para celebrar o mesmo número de anos de existência. Sim, ele foi criado em 1901 e é um dos mais antigos e prestigiados concursos de invenções do mundo. Seu nome vem de Louis Lépine, então chefe de polícia de Paris.
Essa personalidade queria ajudar pequenos fabricantes e artesãos parisienses, especialmente os produtores de brinquedos e objetos domésticos, que sofriam com a concorrência industrial da época. O objetivo era incentivar e apoiar invenções, promover os inventores e aproximar o público das novas tecnologias.
O sucesso foi imediato e o concurso perdura até hoje. É muito interessante: gosto de ver as inovações, coisas que nunca imaginei que pudessem existir — e alguém pensou e fez. Em todas as áreas.
Hoje, ele tem como participantes inventores independentes, engenheiros, startups, estudantes, artesãos e designers. Os prêmios são bastante disputados, já que representam um importante impulso para encontrar indústrias dispostas a produzir os produtos em larga escala.
Foi lá que encontrei a brasileira Aline Peixe Nebot apresentando a escova de dentes elétrica Kyoui, “a revolução na higiene bucal”, um produto desenvolvido com seu marido francês. Comprei a minha — sim, porque é possível comprar os protótipos e invenções.
As invenções concorrem a prêmios: medalhas de ouro, prata e bronze, além de distinções institucionais e internacionais.
O concurso já revelou milhares de invenções ao longo de mais de um século e continua sendo símbolo de criatividade, invenção popular, empreendedorismo e inovação acessível.
Entre os vencedores da medalha de ouro deste ano estão, entre outros: o dispositivo submarino autônomo inteligente para despoluir os fundos marinhos, de Alan D’Alfonso Peral; a coluna de chuveiro que recicla a água fria, de Simon Lillamand; a muleta que deixa as mãos livres, de Nicolas Perrin-Gilbert; o sistema de autoproteção dos edifícios contra incêndios florestais, de Lionel Lopez & Damien Molinengo; e a colmeia de biodiversidade e preservação, de Michel Furter.
Infelizmente, nossa brasileira não recebeu prêmio, mas a escova de dentes me é muito útil. Adaptada ao modo correto de escovar.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
