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domingo, maio 17, 2026

À luz de velas

Entre apagões, Heinekens ameaçadas, velas improvisadas e lembranças afetivas, uma noite sem energia acaba revelando muito mais sobre a modernidade — e sobre o próprio cronista — do que qualquer postagem no Instagram.

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Digamos que, por um lapso de memória — ou de organização financeira, o que na prática dá quase na mesma —, deixei de pagar a Energisa. Ah, que saudades do amigo Filintão, Felipe Gomes de Abreu, o homem forte do sistema elétrico estadual que, ao tempo e à hora, me socorria nessas pequenas tragédias domésticas antes que elas chegassem ao ponto do corte propriamente dito. Pois não é que justamente nesta quinta-feira minha rotina virou do avesso, como se alguém tivesse puxado da tomada não apenas a energia do apartamento, mas também boa parte do meu senso de civilização contemporânea?

Nada de TBT, embora isso eu ainda pudesse arriscar pelo celular conectado ao carro. Nessas horas costumo ficar mais abestalhado do que normalmente já sou. Gostaria até de entrar aqui nas minúcias desse pequeno acidente de percurso — ou de trabalho, dependendo da interpretação —, mas isso exigiria baixar demais o nível e talvez atingir pessoas consideradas inatingíveis. Melhor então me contentar com o velho “candieiro”, no caso uma vela cuidadosamente fincada na própria cera, equilibrada heroicamente sobre o pires do meu sagrado cafezinho. Pelo menos o café seguia garantido pelo amigo Everaldo Leite, uma das últimas instituições sólidas deste mundo cada vez mais eletrônico e menos humano. Menos mal que, mesmo sem poder postar no Contraponto/MS, ainda me restava uma escapada até a famosa padaria do fuxico, espécie de redação paralela onde parte significativa da política douradense segue sendo escrita entre pães franceses, cafezinhos requentados e teorias conspiratórias de balcão.

Só descobri oficialmente o “pior” quando o síndico do prédio, o sempre prestativo Alemão, informou ter visto um preposto da Energisa cortando a energia de alguém lá embaixo. Era a minha. Em sua simplicidade quase franciscana, sugeriu que, uma vez paga a conta, eu avisasse à empresa que havia um idoso em casa para garantir religação imediata. Respondi que não mentiria. Ao que ele, sem perder o bom humor, apontou para meus quase 72 anos e observou que, no máximo, isso seria apenas uma meia verdade.

Como forma talvez inconsciente de punição pela própria displicência, preferi permanecer a noite inteira no escuro. Meus filhos, que moram por perto, chegaram a oferecer banho quente, conforto térmico e até abrigo emocional, mas recusei tudo. O frio ajudava a manter o corpo relativamente civilizado. Além disso, nessa época do ano, o banho deixa de ser obrigação compulsória e passa a obedecer critérios rigorosamente científicos relacionados ao termômetro. Nada que um estratégico “banho tcheco” não resolva temporariamente.

Como venho há dias num improdutivo “cerca-lourenço” a integrante do estafe do prefeito Marçal Filho, para um tête-à-tête — figura que faz ponto num conhecido ponto (sic) da cidade —, resolvi transformar o apagão numa oportunidade estratégica. Bastou o Astro Rei mergulhar lá pelas bandas da Fazenda Itamarati, o breu tomar conta da sacada e lá fui eu em direção ao local. Em vão. Tomei apenas duas Heinekens — até porque o frio também impõe limites à boemia — antes de ser resgatado pelo filho caçula para uma resenha em sua sacada.

Assunto não faltava para uma quinta-feira que já havia começado movimentada, com boa prosa com o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e de seu primo, o brilhante advogado Fábio Trad, hoje pré-candidato petista à sucessão de Eduardo Riedel. Convenhamos: entre Mandetta, Fábio Trad, Energisa, vela, Heineken e apagão, qualquer cronista minimamente atento já teria material suficiente para pelo menos três colunas e uma crise existencial moderada.

Antes de sair para a noite — que nesta época do ano começa perigosamente cedo —, deixei a cama estrategicamente preparada e a vela posicionada no aparador da sala como quem organiza um cenário para eventual retorno dramático. Como a possibilidade de chegar mais pra lá do que pra cá era perfeitamente razoável, sobretudo quando certas emoções aceleram o replay da memória, saí devidamente equipado: meiões trazidos do último inverno europeu, uma respeitável ceroula digna do prosaico prefeito Luiz Antônio Álvares Gonçalves e o mesmo agasalho utilizado para enfrentar as baixas temperaturas da academia de Indaiá.

De volta, já perto da meia-noite, ainda cogitei recorrer à cervejeira da minha modestamente autoproclamada “área gourmet” para uma última saideira. Foi então que a realidade me atingiu como um boleto vencido: sem energia desde o meio da tarde, minhas verdinhas certamente já haviam abandonado a temperatura mínima exigida por um dos apreciadores mais chatos desta cidade.

E foi justamente nesse instante que surgiu o inesperado consolo filosófico da noite.

Entre uma lembrança e outra daquele breve mergulho na escuridão, recordei que Chico Xavier escreveu mais de quatrocentos e cinquenta livros sem computador, sem internet, sem máquina elétrica e, provavelmente, enfrentando apagões muito mais frequentes do que o meu. Mesmo assim produziu uma obra monumental. Já eu, excepcionalmente naquela noite, sequer consegui revisar um capítulo do meu tão aguardado “Como se vira jornalista”. Não por falta de inspiração espiritual, disciplina literária ou mediunidade jornalística. O problema era bem mais terreno: a bateria do computador também havia arriado.

E assim terminou minha quinta-feira à luz de velas — entre boletos esquecidos, Heinekens mornas, lembranças afetivas e a humilhante constatação de que, no fundo, a modernidade talvez tenha transformado até os cronistas em reféns de uma simples tomada. Ainda bem que restava um fiapo de bateria no celular. Foi o suficiente para me recolher ao quarto ouvindo baixinho Inezita Barroso cantar “Lampião de Gás”. “Lampião de gás, lampião de gás, quanta saudade você me traz…” E talvez tenha sido justamente ali, entre a vela derretendo no pires do cafezinho e a voz rouca de Inezita atravessando a madrugada fria de Dourados, que o apagão deixou de ser castigo da Energisa para virar apenas mais uma dessas crônicas que a vida insiste em escrever antes da gente.

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