Durante a inauguração de um estacionamento no Palácio Guaicurus, nesta terça-feira, o deputado Londres Machado, chamado ao microfone, disse que havia pedido ao cerimonial para não falar. Mas como negar a palavra ao homem que mais vezes presidiu a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul? Pelo jeito não havia preparado discurso algum — como se precisasse. Bastou-lhe um improviso curto, daqueles em que velhos caciques falam pouco justamente porque sabem demais, para deixar desconfortáveis não apenas antigos colegas de plenário, mas talvez também setores do Judiciário, do Ministério Público, das forças de segurança e quem sabe até o próprio governador Eduardo Riedel. Tudo começou quando Londres mencionou uma provocação do vice-governador Barbosinha sobre a possibilidade de escrever sua biografia. E então soltou uma frase que, dita por qualquer outro político, soaria apenas como bravata de botequim, mas que, vinda de alguém que atravessou meio século acumulando poder silencioso neste Estado, assume peso quase explosivo:
“O Barbosinha me perguntou quando vou escrever meu livro. Disse que é cedo, que ainda estou muito lúcido para falar tudo o que sei desse Estado”.
Pronto. Bastou isso para a imaginação política sul-mato-grossense entrar em combustão espontânea. Porque talvez não exista figura pública em Mato Grosso do Sul que reúna tantas condições objetivas de carregar segredos de bastidores quanto Londres Machado. Quatorze mandatos consecutivos desde os tempos de vereador em Fátima do Sul. Presidente da Assembleia em incontáveis ocasiões. Governador interino em momentos turbulentos da implantação do novo Estado. Articulador de crises, sobrevivente de mudanças partidárias, testemunha ocular de praticamente todas as grandes guerras políticas regionais desde a divisão do velho Mato Grosso. A sorte do velho cacique é que os métodos investigativos modernos já não utilizam certas práticas rudimentares de antigamente, como o famoso pau-de-arara, que fazia o sujeito confessar até o que não devia. Porque, dependendo do que Londres efetivamente sabe — e principalmente do que ainda guarda em silêncio — talvez certas histórias subterrâneas da política regional façam alguns escândalos nacionais parecerem simples reuniões de condomínio.
E talvez aí se compreenda melhor por que tantos governadores passaram… e Londres permaneceu. Quando Zeca do PT assumiu o governo na virada do milênio passado, trouxe para a Secretaria de Fazenda ninguém menos que Paulo Bernardo, então um dos economistas mais respeitados do país e homem forte das formulações econômicas do projeto de governo petista de Lula. Veio acompanhado da esposa Gleisi Hoffmann, deslocada para missão paralela na Secretaria de Administração. A tarefa era hercúlea: colocar nos trilhos um Estado que nascera sob o signo da disputa oligárquica e da captura estrutural da máquina pública. Um dos maiores desafios era desmontar o famigerado “regime especial”, mecanismo de benefícios fiscais tão generoso quanto nebuloso, que transformara determinados setores econômicos numa espécie de aristocracia tributária regional. Numa reunião com empresários na ACED, em Dourados, Paulo Bernardo bateu na mesa:
“Vou acionar a Polícia Federal, o Exército e, se preciso for, até o FBI, mas vou acabar com essa farra do regime especial no Mato Grosso do Sul”.
Como diria o comprido deputado pernambucano Marcos Maciel, tudo acabou virando “tertúlia flácida para bovino dormitar”. Continuaria quase tudo como sempre esteve. Ou melhor: como Londres Machado conhecia como poucos.
Era um tempo em que fiscais da Secretaria de Fazenda eram mais temidos pelo comércio do que certos grupos policiais pela bandidagem. Leonildo Bachega e Délio Held comandavam verdadeiros arrastões fiscais numa época em que ainda não existiam pix, aplicativos, informatização ou rastreamento eletrônico sofisticado. Era tudo no dinheiro vivo, no carimbo, na influência, nos bilhetes discretos e no fio do bigode.
Pedro Pedrossian, que governou tanto o velho Mato Grosso quanto o Mato Grosso do Sul recém-criado, costumava dizer reservadamente que o Estado só deslancharia no dia em que se livrasse daquilo que chamava de “máfia da Fazenda”. Uma estrutura de poder que, segundo ele, sobrevivera à divisão do Estado, às alternâncias partidárias e às sucessivas crises políticas. E no imaginário pedrossianista Londres Machado sempre aparecia orbitando o centro dessa engrenagem.
Aliás, o próprio Londres talvez tenha deixado escapar certa vez uma síntese involuntária de como funcionavam as coisas naquele período. Durante uma viagem de Pedro Pedrossian entre Fátima do Sul e Vicentina, ao passar diante de uma propriedade rural de Londres que impressionou o governador, o deputado apontou casualmente para a sede da fazenda e comentou: “Isso aí, dr. Pedro, porque fui governador só quinze dias… das duas vezes”. Parecia piada. Mas talvez também uma confissão involuntária de época. Porque poucos homens acumularam tanto poder silencioso quanto Londres Machado. Quando não presidia diretamente a Assembleia, o presidente era invariavelmente alguém de sua estrita confiança. Tudo passava por seu gabinete — formalmente ou não. A única vez em que não ocupou mandato foi quando saiu candidato a vice-governador na chapa de Delcídio do Amaral. Ainda assim, por precaução política, fez a filha Graziela deputada estadual para manter a cadeira aquecida. Perdida a eleição, continuou circulando pelos corredores do poder como se jamais tivesse saído.
E talvez seja justamente essa capacidade de permanecer — discretamente — o grande segredo de Londres Machado. Enquanto outros caciques berravam, apareciam demais, enfrentavam operações policiais ou tombavam sob holofotes nacionais, Londres preferiu o método subterrâneo: construir relações, distribuir espaços, cultivar lealdades, controlar fluxos e ampliar silenciosamente seus tentáculos sobre setores estratégicos da economia regional. Supermercados, publicidade, imprensa, estruturas empresariais… tudo orbitando, em maior ou menor grau, o velho centro gravitacional montado em torno de Fátima do Sul. Na imprensa, por exemplo, houve tempos em que praticamente não existia distribuição republicana de verbas publicitárias. Os apaniguados eram poucos — e prosperavam rapidamente. Gente que ficou milionária. O próprio deputado Gandhi Jamil, herdeiro do Grupo Zahran, expandiria pesadamente investimentos em comunicação no Estado, ajudando a consolidar conglomerados midiáticos regionais poderosíssimos.
Mas talvez as histórias mais perigosas que Londres Machado carregue não estejam necessariamente nas planilhas, nos decretos ou nos bastidores fazendários. Talvez estejam justamente nas pequenas histórias paroquiais, nas miudezas da política interiorana, nos episódios que misturam poder, improviso, coronelismo e um certo humor grotesco típico da política brasileira profunda. Como o episódio lendário envolvendo a eleição da esposa Ilda Salgado, mesmo depois do rumoroso flagrante de pagamentos políticos feitos com dinheiro escondido no sutiã. Ou as operações emergenciais em que o fiel escudeiro José Jorge Leite, o Zito, precisava improvisar o porta-malas do velho Opala oficial para acomodar o chefe em deslocamentos politicamente delicados.
E talvez seja exatamente por isso que Londres Machado ainda não tenha escrito suas memórias. Porque certos homens públicos passam a vida inteira acumulando poder. Outros acumulam histórias. E há aqueles que sobrevivem lúcidos demais para contar tudo o que sabem.
