Entre as correções da edição francesa de meu livro Na rota de traficantes de obras de arte — que também fala do nosso Mato Grosso do Sul — e a escrita da biografia de uma personalidade sul-mato-grossense da área da educação e da cultura, Maria da Glória Sá Rosa, a nossa Glorinha, para lançamento nos cem anos de seu nascimento, no ano que vem, sinto necessidade de praticar esporte e de “fugir” das personagens — neste caso, das personagens dos dois livros — para “esparecer a cabeça”, como dizia meu pai.
Assim, fui, nesta quarta-feira, ver a exposição de Matisse no Grand Palais. Na verdade, a mostra é organizada pelo Centro Georges Pompidou, cujo Museu Nacional de Arte Moderna está atualmente fechado para reformas.
Uma caminhada de pouco mais de 40 minutos, passando pelos Invalides, onde a homenagem a Edgar Morin havia acabado de acontecer. Antes de atravessar o Sena, a cúpula do Grand Palais surge bela, recentemente restaurada. Após as filas — mesmo para quem já tinha ingresso, tamanho o sucesso da exposição — consigo entrar na primeira sala da mostra: Matisse, 1941-1954, dedicada aos anos finais de sua vida.
O site do Grand Palais informa:
“Na luz deslumbrante dos seus últimos anos, Matisse inventa uma nova linguagem: a das formas recortadas e da cor pura. Mais de 300 pinturas, desenhos, livros e guaches recortados retratam, entre 1941 e 1954, o percurso de um artista livre e em perpétuo movimento.”
Para mim, Matisse é sinônimo de azul. De cores. Muitas cores, cores vivas, inclusive o preto. E de formas. Na primeira sala, uma parede inteira mostra, em preto e branco, os diversos estudos para A Blusa Romena, permitindo acompanhar o caminho percorrido pelo artista até chegar ao famoso quadro.
Na fase final da vida, já idoso e com problemas de saúde, Matisse reinventou sua linguagem artística por meio dos recortes de papel colorido, produzindo algumas das obras mais influentes da arte moderna. Passou a “pintar com a tesoura”, criando composições com papéis recortados, como em Jazz e nas decorações da Capela de Vence. Um vídeo mostra o pintor trabalhando com sua inseparável tesoura.
Os Nus Azuis (Nus bleus, 1952) revelam o azul de Matisse em toda a sua força, em formas diferentes e surpreendentes. Recortes de papel azul representam o corpo humano de maneira extremamente simples e poderosa. Em movimento. Obras que hoje pertencem a diferentes museus foram reunidas excepcionalmente no Grand Palais.
Meus olhos vão se enchendo de prazer à medida que passo de sala em sala. La Gerbe (O Feixe, 1953) e Les Acanthes (1953) pertencem ao período em que Matisse desenvolveu a técnica das gouaches découpées: folhas de papel pintadas com guache, recortadas com tesoura e organizadas em grandes composições.
La Gerbe parece um buquê ou feixe de folhas e pétalas que explode sobre um fundo branco. As formas coloridas irradiam a partir de um centro invisível, criando uma sensação de expansão, movimento e alegria.
Movimento e alegria é o que sinto diante de cada quadro, de cada imagem. Os movimentos da natureza, da música, da vida.
Volto para casa com a alma lavada, pronta para continuar o trabalho.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
