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segunda-feira, julho 27, 2026

Será que chegou a hora do Cristo descer do madeiro para subir em palanque eleitoral?

Na semana decisiva das convenções partidárias, uma conversa de Juca Kfouri com o pastor Ed René Kivitz ajuda a entender por que disputa política avança sobre as igrejas

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Valfrido Silva

Se o insubordinado da política tem, de vez em quando, suas recaídas pelo futebol, por que Juca Kfouri, um dos maiores cronistas esportivos do país, não poderia se aventurar pelas minudências da religião? O próprio Juca conta que é criticado por isso. Confesso que me identifiquei. Talvez algumas críticas que tenho recebido ultimamente tenham a mesma origem. Há quem ache que jornalista político deve falar apenas de política. Cronista esportivo, apenas de futebol. Pastor, apenas de religião. Como se a vida tivesse aprendido a respeitar essas fronteiras imaginárias. Nunca respeitou. O futebol fala de política. A política invade os templos. A religião influencia eleições. E as eleições transformam a fé em ativo eleitoral. Não há mais cercas. Há apenas quem ainda finja que elas existem.

Foi exatamente por isso que me detive numa longa conversa entre Juca Kfouri e o pastor metodista Ed René Kivitz. Não porque um resolvesse entrevistar o outro, mas porque ambos pareciam inquietos com a mesma pergunta: quando foi que a fé deixou de ser um caminho de transformação para se transformar em instrumento de poder? Juca não entrevista para confirmar convicções. Pergunta para compreender. E talvez seja essa a primeira lição de uma conversa que deveria ser obrigatória para muita gente que prefere repetir frases prontas a exercitar o desconfortável hábito de pensar.

Enquanto ouvia Ed René, fui entendendo por que ele desperta tanta admiração de uns e tanta irritação de outros. Não porque pregue uma nova Bíblia. Muito pelo contrário. O que ele propõe é uma nova postura diante da velha Bíblia. Ou, como diz com enorme precisão, a necessidade de ressignificar a leitura das Escrituras. Não é a Bíblia que precisa mudar. Quem precisa mudar é o leitor. Parece um detalhe semântico. É uma revolução.

Porque boa parte dos conflitos religiosos, políticos e ideológicos do Brasil nasce justamente daí. Não lemos mais para compreender. Lemos para confirmar. Procuramos no texto apenas aquilo que reforça nossas certezas. Fazemos isso com a Constituição. Com decisões judiciais. Com pesquisas eleitorais. Com manchetes de jornais. E, tragicamente, fazemos isso também com a Bíblia. Arrancamos um versículo do contexto, ignoramos todo o restante da narrativa e saímos convencidos de que Deus acaba de homologar nosso voto, nosso partido, nossa ideologia e, se possível, até nosso candidato.

Impossível não lembrar de Dom Hélder Câmara, de Dom Pedro Casaldáliga e, mais recentemente, do papa Francisco. Cada um, a seu modo, foi acusado de misturar religião com política. Talvez porque insistissem numa verdade incômoda: o Evangelho nunca foi indiferente à vida em sociedade. Mas outra coisa, completamente diferente, é transformar a fé em plataforma eleitoral ou fazer da religião um braço auxiliar da disputa pelo poder. Há um abismo entre iluminar a política com valores cristãos e instrumentalizar Cristo para conquistar votos.

Ed René toca exatamente nesse ponto. Cristo não veio para legitimar projetos de poder. Veio para confrontá-los quando desumanizam as pessoas. Não fundou partido. Não organizou bancada. Não distribuiu cargos. Não escolheu ministros. Não prometeu prosperidade em troca de fidelidade. Não montou chapas proporcionais. Terminou pregado numa cruz justamente porque sua mensagem incomodava aqueles que confundiam religião com poder.

Talvez seja essa a maior ironia do nosso tempo. Nunca se falou tanto em Jesus. Nunca se exibiu tanto a Bíblia. Nunca se vendeu tanta fé. Nunca se comercializou tanto o sagrado. Nunca se faturou tanto em nome daquele que expulsou os vendilhões do templo. Há camisetas, canecas, shows, campanhas, slogans, produtos, estratégias de marketing, plataformas eleitorais, influenciadores religiosos e verdadeiras indústrias construídas em torno de sua imagem. Cristo continua no madeiro. Quem desceu dele fomos nós, para negociar sua marca.

A ilustração que acompanha este artigo procura justamente provocar essa reflexão. Cristo permanece pregado à cruz enquanto, aos seus pés, uma multidão transforma seu sacrifício em negócio, em espetáculo e em plataforma de poder. É uma metáfora dura. Mas talvez menos dura do que a realidade.

E por que tudo isso me ocorreu justamente agora? Porque começa a semana decisiva das convenções partidárias. A famosa hora da onça beber água. A partir de agora, os discursos inflamados sobre democracia cedem espaço à matemática eleitoral. Os partidos correm para fechar suas chapas. Os telefones não param. Os cafés se multiplicam. Os encontros se sucedem. E reaparece uma figura conhecida do folclore político brasileiro: o cabo eleitoral profeta.

Ele não pede voto. Distribui revelações. Garante que a nominata é imbatível. Jura que “agora vai”. Afirma que a pesquisa interna coloca determinado candidato em situação confortável. Assegura que a vaga está praticamente reservada.

Conheço esse evangelho há mais de meio século. Ele é pregado a cada eleição. E continua produzindo fiéis.

Alguns candidatos entram nesse leilão interno acreditando que finalmente encontraram a legenda perfeita. Outros confundem gentileza com compromisso político. Há quem interprete uma fotografia ao lado de uma liderança como passaporte para a vitória. Há quem transforme uma conversa de corredor numa espécie de profecia eleitoral. E quando as urnas finalmente falam, descobre-se que nem todo sermão de bastidor era inspirado.

Talvez seja justamente aí que a conversa entre Juca Kfouri e Ed René Kivitz ultrapasse a religião e entre definitivamente na política. Ela fala de interpretação. De honestidade intelectual. Da coragem de deixar que um texto nos confronte, em vez de domesticá-lo para servir aos nossos interesses. Vale para a Bíblia. Vale para a Constituição. Vale para uma pesquisa de opinião. Vale para um programa partidário. Vale para um discurso de campanha.

No fundo, a pergunta do título é apenas uma provocação. Cristo nunca quis descer do madeiro para subir em palanque. Quem insiste em levá-lo aos palanques somos nós. E toda vez que isso acontece, a política perde um pouco da sua ética, a religião perde um pouco da sua espiritualidade e o eleitor perde mais um pedaço da capacidade de distinguir fé de marketing, convicção de conveniência, Evangelho de propaganda.

Talvez o Brasil não esteja precisando de uma nova interpretação da Bíblia. Muito menos de um novo messias eleitoral. Talvez esteja precisando reaprender uma antiga virtude: a humildade de permitir que a Palavra transforme o leitor, em vez de permitir que o leitor transforme a Palavra em cabo eleitoral.

É uma boa reflexão para abrir a semana em que tantos correrão atrás de partidos. E que, infelizmente, poucos correrão atrás da verdade.

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